Respeito

Eriçou a voz, empunhasse espadas, ahã ahã, espiando o céu (como se O visse: vigiava era Deus), mal articulava o português, alguém de fora julgaria um outro dialeto (e não é?), ahã ahã, ajeitou a gola da camisa. Subiu o mais alto que pôde, via a favela inteirinha, tinha de se arriscar no idioma Dele, rezou: vós que sois Deus, tende piedade de mim e de minha família, tira-nos desse sofrimento, dessa desgraça de vida, acaba com essa tristeza sem fim, Amém. Pensou escutar um estampido, arrepiou-se um pouco e saiu correndo dali, a mãe-de-santo lhe prevenira: não brincasse com essas crenças dos brancos. Dia depois voltava da pinga com os amigos, mal molhara a garganta, quase sorria pensando na bobagem que fizera. Então Ele teria tempo para mim? Pulou na sua frente um outro coitado reclamando vingança, por que brincar com mulher dos outros? O revólver querendo cuspir em sua testa, o outro disse: filho da puta, antes de te acertar, fique sabendo que já passei na sua casa, comi sua mulher e sua filha. Depois matei as duas. Agora é a sua vez. Tem alguma coisa a dizer antes do tiro? Tenho: Deus me ouviu. Que merda.

-- publicado em janeiro 15, 2003, às 8:29:43 AM

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Pizza

Já estava acostumado ao barulho que fazia ao mastigar. E ela? Viesse com aquela de adivinhar a idade, chutaria quarenta e cinco, mas acredito em algo como cinqüenta, cinqüenta e quatro. Entretanto alegasse trinta e seis, concordaria, vocês nem desconfiam o que a vida pode aprontar com uma mulher. Eu queria uma mais enxuta, mas estou enrugado demais, gordo demais, careca demais. E fumo como o capeta. E a vi se levantar, meus dentes sem o gume da juventude ainda trabalhavam arduamente. Ouvi vou até o nheiro e deduzi que a cerveja já aprontava das suas, de relance vislumbrei sua calça de puta, embora nada estivesse lhe devendo, os quadris entontecidos com os abalos, as raízes negras preponderando no cabelo dissimulado. Fechou a porta e pensei tenho de ser rápido. Engoli o naco porcamente triturado, olhei para o garçom que atendia outra mesa ali perto, apertei a carteira na esperança de ter esquecido ali uma nota e assim poder desistir e: nada. A luz do banheiro acesa, tive tempo para um último trago de cerveja, aprendi com meu pai a não desperdiçar bebida, ergui a cabeça e ganhei a rua.

-- publicado em janeiro 13, 2003, às 12:07:13 PM

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De mim. Setenta e poucos de lugar nenhum. De pai, mãe e demônios, irmãos.

Whisner Fraga é contista.

De mim o quê? Augúrio em meu nome, whisky. Tantos joãos e marias, romãs e romarias, bares e putarias.

Whisner Fraga e' mineiro de Ituiutaba.

De mim falem os outros.

Whisner Fraga e' engenheiro e estudante de Letras.



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