agosto 29, 2002

FILOSOFIA DE VERDADE

"Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e a cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a Lua é bela."

Lição do mestre Rubem Braga, que encontrei no blog Cracatoa Simplesmente Sumiu.
escrito por Alexandre Inagaki, às 4:22:55 PM.

agosto 25, 2002

PAUSA PARA REFLEXÃO

"Mas o poder - como o amor - tem dois gumes: exercemos e padecemos. Ao mesmo tempo que gera um estado de levitação pura, gera também seu avesso: a busca de uma felicidade irresistível e fugidia, só comparável à busca de um amor idealizado, que se anseia mas se teme, se persegue mas não se alcança".

(Gabriel García Márquez, em Notícia de um Seqüestro)
escrito por Alexandre Inagaki, às 8:24:26 AM.

agosto 23, 2002

reminiscências
a Guida Fernanda

Em tempo, abriu-se como uma flor primaveril. Os dedos percorriam a pele tal qual formigas alvoroçadas sobre folha verde. De desejo, o calor não se continha e subia rápido pelas paredes
das costas, escorrendo como gotas de suor – lágrimas vertidas de um olho azul derramavam-se sobre o leito grená.

Estou tão triste que te amaria, por certo
Sou casada
Importa-me não. A tristeza é muita que pago para até sorrir.

Foram por duas vezes deixando a sala e decifrando símbolos que se pareciam com poemas

À luz do dia
vejo você
sombra nas paredes

E o plácido instaurava-se em versos repetidos, sinfonia polifônica atravessada por tosses no bocal.

Amo a luz do dia como a ti
Sou casada
Como assim eu. A tristeza é tanta que o canto é surdo.

Desfaçatada nudez, a cena proibida introjetava-lhe veneno pelas veias, percorrendo-lhe os mínimos vasos, inócuos versículos explodindo-lhe hemorragias incontroláveis
sangue que escorre pelas artérias – lava a alma antes que seja tarde.

Pés sobre o tapete artificial, as meias de algodão lhe davam cócegas
havia de se lembrar da cara do padre triste escolhendo palavras paulatinamente sem que cegasse alguém de vergonha.

Em poucos dias
minha vista
será visita

Em horas breves os segundos são curtos, curtos, curtos. Odes repetidas a deuses distraídos. Desastrados servos de senhores solitários.

Deixa eu morder tua alvura
Sou casada
Vermelha deixarei a branca pele em mordidas.

Abelhas africanas não lhe pouparam a vida. Ferroadas doloridas deixam frágeis caroços
o coco verde que desaba lá do alto – choca-se com a cabeça, parte-se como um ovo galináceo.

Madeira escorre em tinta
pinta a pele, tatuagem
raspa em outra, fricção
hematoma no coração
escrito por Ricardo Sabbag, às 12:48:35 AM.

agosto 13, 2002

Tempos de cansaço
a Marcela Amorim

A cada dia que passa, meu rosto ganha novas rugas, novas marcas, novos pontos deteriorados que nem sonhavam em se depositar na pele ora juvenil anos antes.

Minhas feições estão se tornando sisudas, a superfície desgastada, áspera, sem chances de regeneração.

O rosto suporta os dias e noites, os pânicos, os prantos, os risos debochados, os bocejos, os beijos e o silêncio.

Crescem os pelos sobre a cara. Lá em cima, do coco, eles caem - e os que sobrevivem esmorecem e empalidecem.

Cansaço e dor.

Flacidez.

Desmemória.

Resignação.

O músculo que estica, estica até estirar. Será que vai voltar para o seu lugar?

Olhos desatentos. Fugidios, despercebem a lucidez.

Resto o tempo.

Resta o que resta.
escrito por Ricardo Sabbag, às 11:01:48 PM.

agosto 12, 2002

ÀS VEZES SEMPRE

Às vezes as idéias pululam em minha cabeça como turistas desavisados descalços saltitando pelas areias estupidamente quentes de Ipanema.

Às vezes imagino como seria melhor se eu tivesse a capacidade dos budistas de libertar a mente de qualquer pensamento, mergulhar fundo em um mantra e flutuar na paz branca e translúcida de quem medita, hare hare aouuummmmm...

Às vezes penso muito, penso penso penso DEMAIS, centenas e centenas de pensamentos simultâneos ricocheteando pelos sete buracos da minha cabeça, zunindo feito papa-léguas pelo grand canyon dentro de mim, e me perco inutilmente tentando alcançá-los.

Às vezes chego a uma conclusão definitiva. Mudo de idéia trinta segundos depois.

Às vezes concebo Setenta Cavalos Alados Parindo Luzes Dodecafônicas pelo Céu de Liverpool Enquanto um Mulher de Beleza Exata Como os Quadrados de Mondrian Pisoteia Baratas Kafkianas Afiliadas à Liga das Pamonhas de Piracicaba Dissidentes Daquelas que Sonhavam com a Conquista da República de Vladivostok Entre Tabuleiros Sanguinolentos de War e Reproduções em Silk-Screen do Vice-Presidente do Reino Utópico dos Amantes Crucificados Que Se Flagelavam Enquanto Assobiavam Canções Empoeiradas de Cavaleiros Medievais Embevecidos com as Imagens Vagas de Ninfetas de Elevador Trajando Calças M. Officer e Saias com a Estampa Transcendental dos Pescoços de Modigliani.

Às vezes entupo minhas narrativas com piadas inconseqüentes, metáforas rebuscadas, digressões gratuitas, de forma que me esqueço completamente do que estava escrevendo, e aí jogo tudo fora e deixo só as piadas.

Às vezes penso que deve haver um inferno ao qual são condenados todos os idiotas que deixaram um amor morrer, e eu, com certeza, serei flambado num caldeirão ad eternum, ouvindo Backshit Boys e assistindo a programas evangélicos no canal comunitário do limbo.

Às vezes meses parecem dias. Planos de anos são utopias.

Às vezes tartamudeio, gaguejo, vocifero, liquefaço, justaponho, defeco, repito, repito, latejo, trompeteio, esporro, grogrolejo, tremeluzo, redescubro, alicio palavras; depois, reescrevo-as.

(publicado originalmente em Pensar Enlouquece, Pense Nisto.)
escrito por Alexandre Inagaki, às 11:59:42 AM.

agosto 7, 2002

Cansaço

Há alguns dias venho dividindo minhas madrugadas entre partidas de Baldur's Gate II e o template do saBBlog, que resolvi ressuscitar (ainda não está pronto).

O Baldur's é importante porque faz com que eu livre a cabeça das aporrinhações do trabalho e só pense em como matar Trolls e bichos comedores de carne de cachorro (não são coreanos). Depois, começa uma luta muito dura com linguagem HTML - nem tenho certeza se é isso, mas enfim... - que parece ter sido a resposta para uma inquietação "artística" *cof cof* que eu vinha sentindo há algum tempo.

O trabalho madrugueiro, no entanto, tem me levado à exaustão, o que faz que no dia seguinte esteja querendo mais cama e limonada. Como não dá, haja reserva de fadiga a se descontar no fim de semana.

Hoje, no jornal, senti o problema na pele, demorando mais de uma hora para escrever um texto de pouco mais de 2 mil caracteres. Tough.

Acredito, no entanto, que estas tarefas auto-impostas livrem minha consciência de que estou deixando de fazer alguma coisa (a qual nem bem sei direito qual é).

Abandonei a leitura de Thomas Pynchon, o que, decididamente, não é bom sinal.
escrito por Ricardo Sabbag, às 12:31:09 AM.

agosto 3, 2002

TEUS OLHOS SERÃO ATENDIDOS

Peguei aqui - http://blog.cabezamarginal.org/escapulindo

Para Suzi Hong. Porque ela merece. :)
escrito por Alexandre Inagaki, às 8:54:05 AM.

agosto 1, 2002

ALLEN DIVAGANDO SOBRE A VIDA

"Num universo sem Deus não quero continuar vivendo.
Mas... e se Deus existir? Ninguém sabe com certeza.
Não. 'Talvez' é insuficiente. Eu quero ter a certeza ou nada.
Até comprei um rifle, e o carreguei. Estava decidido a me matar.
Eu caminhei horas pela cidade. Resolvi sentar um pouco. Fui ao cinema.
Era uma comédia dos Irmãos Marx.
Fiquei vendo aquela gente na tela e comecei a me interessar".
...


Duck Soup (Diabo a Quatro), de 1933

...
"Rá! Como eu fui pensar em me matar? Mas que idiotice!
E se o pior for verdade mesmo? E se Deus não existir? E se a gente viver uma vez só e ponto?
Você não quer viver essa experiência? A vida não é tão chata assim.
Eu tenho que parar de me atormentar procurando respostas que não vou conseguir.
Aproveitar a vida enquanto ela está aí.
E depois... quem sabe pode existir alguma coisa? Ninguém pode ter a certeza absoluta.
Eu sei que o talvez é uma esperança pra gente se agarrar com unhas e dentes.
Mas é melhor que nada".

(o monólogo de Woody Allen em Hannah e Suas Irmãs, de 1986)
escrito por Alexandre Inagaki, às 7:27:55 PM.

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