junho 29, 2002

DIÁLOGOS INESQUECÍVEIS

Bill Watterson rules- Eu gosto de acompanhar o noticiário! As agências de notícias sabem que eu não vou agüentar nenhuma discussão séria de assuntos complexos e chatos. Elas me dão o que eu quero: palhaçadas, confrontos emocionais, citações, escândalo, histórias tristes, pesquisas de popularidade e corrida de cavalos! É muito divertido.
- Daí os comentaristas se perguntam por que o público é tão cínico a respeito de política.
- Dá pra ver que esta é uma reportagem profunda, porque tem um artigo ao lado do gráfico.

Calvin & Haroldo. Um clássico.
escrito por Alexandre Inagaki, às 4:05:44 AM.

junho 27, 2002

SÁBIAS PALAVRAS

"Eu àquela altura tinha desistido de entendê-la, e, na verdade, nem então, nem agora, cheguei a entender uma mulher. Não sei o que elas pensam, não sei o que elas querem, só sei que querem sempre o contrário do que pensam".

(do escritor argentino Tomás Eloy Martinéz, em seu excelente romance Santa Evita)
escrito por Alexandre Inagaki, às 2:26:47 PM.

junho 26, 2002

PAPA-LÉGUAS E OS DESENCONTROS DA PAIXÃO

O que mata na vida são relacionamentos mal-resolvidos. Aquela menina que sorriu pra você na festa da formatura da 8a. série, e que você não abordou porque era um tremendo dum bunda-mole. A colega de trabalho com quem você teve um caso, e que não foi pra frente porque tanto ela quanto você estavam enrolados com outras pessoas, e que permanece encalacrada em seus pensamentos, como uma bala Soft entalada na garganta. A vida que poderia ter sido mas não foi, como escreveu o Bandeira.

Quando penso em affairs enrolados, lembro sempre dos desenhos do papa-léguas. Nada me tira a convicção de que aquele coiote pagava o maior pau pelo Bip-Bip. E todas aquelas bigornas que caíam em sua cabeça, as quedas nos abismos do Grand Canyon que terminavam em nuvens de pó, e as explosões dos artefatos sempre bichados da Acme, não passavam de metáforas do desentendimento amoroso. Como um apaixonado desavisado, que ouve da amada uma frase como "não quero estragar nossa amizade", e sente o chão escapar dos seus pés.

Uma vez, por uma só vez eu gostaria de ver o Bip-Bip se entregando à imensa fome de amar do desajeitado coiote. Assim como gostaria de ver os moleques escapando da Caverna do Dragão, ou o Pato Donald dando uma coça nos folgados do Tico e Teco. Mas crianças, como todos devem saber, são sádicas, e gostam de ver personagens se estrepando, e riem gostosamente de tantas desgraças, e sofrimentos, e explosões.

(texto publicado originalmente no Spam Zine 007, de 18/03/2001)
escrito por Alexandre Inagaki, às 4:48:42 PM.

junho 21, 2002

OPS, TEM UM PAULO COELHO DENTRO DE MIM

Ainda curtindo o fastio pós-futebol, ocorreu-me a seguinte reflexão: às vezes cometemos erros na vida - feito o Lúcio servindo de lambuja o gol pro Michael Owen - mas o importante é que consigamos sair vitoriosos da peleja deste mundo.

Paul Rabbit, te prepara que está surgindo um novo concorrente pra ti!
escrito por Alexandre Inagaki, às 3:34:44 AM.

junho 18, 2002

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO

Há momentos na vida em que palavras são mais inúteis do que nunca. É nessas horas que recorro aos mestres, capazes de traduzir o indizível.

SER

O Filho que não fiz
hoje seria homem.
Ele corre na brisa,
sem carne, sem nome.

Às vezes o encontro
num encontro de nuvem.
Apóia em meu ombro
seu ombro nenhum.

Interrogo meu filho,
objeto de ar:
em que gruta ou concha
quedas abstrato?

Lá onde eu jazia,
responde-me o hálito,
não me percebeste,
contudo chamava-te

como ainda te chamo
(além, além do amor)
onde nada, tudo
aspira a criar-se.

O filho que não fiz
faz-se por si mesmo.

Obrigado, Drummond.
escrito por Alexandre Inagaki, às 3:58:37 PM.

junho 13, 2002

YOU MUST REMEMBER THIS

a sigh is just a sighOs aspirantes a Rob Fleming deliram com essas listas, não sem motivos. O American Film Institute (AFI) divulgou, esta semana, uma relação com os 100 melhores filmes românticos da história do cinema norte-americano. A lista completa, acessível aqui, é encabeçada pelo incontestável "Casablanca", clássico de 1942 protagonizado por Humphrey Bogart e Ingrid Bergman. Em segundo lugar, os membros da AFI, elegeram "... E o Vento Levou", obra-prima de 1939.

Não vou reproduzir aqui a lista completa, vão e confiram. Só gostaria de comentar o detalhe que mais me chamou a atenção nesta relação: em sete dos dez filmes mais votados, o casal de protagonistas não tem um final feliz. Esse aspecto me fez lembrar de cara a Filosofia da Composição, texto em que Edgar Allan Poe explica, com minúcias, como compôs "O Corvo", seu poema mais famoso. Chamo a atenção para este trecho em particular:

(...) considerando o belo como o meu terreno próprio, perguntei-me: "Qual é o tom para a sua manifestação mais alta?". Este seria o tema de minha seguinte meditação, e toda a experiência humana nos leva a crer que esse tom é o da tristeza. Qualquer que seja seu parentesco, a beleza, em seu desenvolvimento supremo, induz às lágrimas, inevitavelmente, as almas sensíveis. Assim, a melancolia é o mais idôneo dos tons poéticos.

Poe, neste trecho publicado em 1845, acertou em cheio. Pois explica o porquê do fascínio que as histórias de amor mal sucedidas imprimem em nosso inconsciente coletivo. "Casablanca" seria o clássico que é hoje se Rick e Ilsa concretizassem sua relação e fugissem juntos, felizes feito dois pombinhos idílicos? "Never", balbuciaria o corvo de Poe - porque clássico que é clássico precisa terminar com um final em branco, uma página inacabada na qual a imaginação de cada espectador desenhará toda uma miríade de possibilidades após a descida dos créditos finais. Do mesmo modo, pense em outros finais infelizes e definitivos em nosso background cultural: "Romeu & Julieta", "Doutor Jivago", "Annie Hall", "O Morro dos Ventos Uivantes". Alguém realmente acredita que tais obras teriam a mesma força se acabassem como nos contos de fadas?

Definiu bem mestre Paulinho da Viola: "lágrimas são as pedras preciosas da ilusão".
escrito por Alexandre Inagaki, às 1:59:04 PM.

junho 10, 2002

CARTA A UM AMIGO

Você tem o dom... Acho que só você consegue fazer com que eu me sinta a pior pessoa do mundo, a mais louca, a mais incompreendida, a mais pentelha, a mais doente e incapaz, a mais..

Você me deixa com vergonha de mim mesma, você me faz sentir vergonha de pedir desculpas, de existir assim como eu sou, você torna meu passado um nada e me tira a voz, a razão. Você me dá medo, você me dá medo...

Eu tento amputar você de mim, Deus sabe o quanto eu tento. Deus sabe o quanto eu tenho pedido em minhas orações por paz, força, esquecimento, anonimato, descanso. Mas minha , creio eu, não tem sido suficiente para que Ele ouça minhas súplicas.

"A dor vence, no fim de tudo", e triunfa em choros convulsivos e abafados pelo travesseiro, porque é madrugada e todos dormem, até você.

"E dizem que a solidão até que me cai bem". Confesso: as músicas da Legião Urbana serão indeléveis em minha memória, já que me identifico terrivelmente com suas letras.

My friend, as coisas estão difíceis pra ti também, eu sei. Porém, se eu realmente signifiquei algo, esquece ao menos uma vez o teu egoísmo e me leva embora de ti - porque agora é melhor pra mim. Não... agora eu quero que seja assim.

A dor vence, no fim de tudo.

No fim de meus sonhos, não há um cara sorrindo e dizendo “Descansa, porque agora eu vou cuidar de você”. Entende?

Não, você não entende e agora, babe, isto não é uma acusação mordaz cheia de acidez. Você não entende porque você é ingênuo e bom demais para entender. E a tua ingenuidade, tua bondade, teu sexo, teu cheiro, teu colo me dão medo. Você tem cheiro de mar. Tua voz carrega o marulho e vicia. Tenho medo de me acomodar para sempre no amor que ainda sinto por ti e esquecer que o mundo lá fora precisa de mim e eu dele. Tenho medo, neném, de me dar por satisfeita e desfalecer agora, com um suspiro de paz, por ter encontrado alguém que, mesmo sem entender porra nenhuma, me fez feliz. Tenho medo, porra, de sentir que meu coração está parando de bater e, ainda assim, não ter medo do que vai acontecer, porque estou em teus braços.

Então, deixa as coisas como estão, antes que eu ceda à vontade louca de sair daqui ao teu encontro. Você não merece, você não aguenta a barra e eu já não sou a mesma suzi de antes. Fodeu, tomei gosto pelo fracasso e pela vontade de não lutar. E me perdoa por tudo o que vivemos juntos, por tudo o que pareci ser e prometi ser. Este pedido de perdão dá significado a todos os pedidos de desculpa que trocamos, mesmo sem querer. Porque não é só para você - é pra todos as Tatianas, Ricardos, Lucianas, Alexadres, Josés, Suzis, pais e mães, irmãs e irmãos, Amores-Fênix, assassinos, heróis e heroínas que eu não pude acolher em mim por um não sei o quê.

A dor vence, no fim de tudo.

E eu sei, assim como você, que a solidão até que me cai bem.

Deixa eu me perder de mim. Deixa eu me conformar com o que me foi dado. E, por favor, não pensa em mim se for pra te esconder. Se você quiser pensar em mim, tudo bem, desde que eu não saiba, desde que eu não sinta teus pensamentos chegando até mim com o vento da primeira hora da manhã me batendo a face.

“It's all over now, baby blue”.
escrito por Suzi Hong, às 6:54:25 PM.

DESISTÊNCIA

Insuportáveis esses Macs velhos.

Tentei por todas as leis editar o texto da bandeira, mas o erro no explorer foi tamanho que ele simplesmente deixou de funcionar. E assim, criei um enigma insolúvel para os caras do suporte técnico (alguém já viu Nick, the company's computer guy no Saturday Night Live?).

Então desisti.

Mas tá lá, salvo. Junto com outros três que eu tentei postar e o Old Mac se recusou a aceitar.
escrito por Ricardo Sabbag, às 12:38:54 PM.

junho 5, 2002

LESMA LERDA

Tive o despautério de ler a reportagem "El oscuro origen del ritmo de moda". Entendi alguma coisa, visto meu espanhol macarrônico. Engraçado que no Chile Axé e funk sejam a mesma coisa, e que a jornalista tenha endendido que aqui Axé se conhece por Funk.

Bem, é tudo farinha do mesmo saco, afinal. Estranho é perceber que o axé, depois de amargar dois anos de quedas nas vendas dos discos no Brasil, tenha migrado para outros países latinos em busca de público. E, lendo o e-mail que ela mandou para o Alexandre, imagino o que a repetição maçante de "Tchu Tchuca" e afins esteja causando naquele povo.

Isso me leva a crer que a tal nivelação por baixo da cultura de massa seja um fenômeno globalizado. Não é novidade. Ontem à tarde, de cama por causa de um dolorido torcicolo, fiquei rindo muito zapeando entre Márcia Goldschimidt, Sônia Abrão e Claudete Troiano – todas inspiradas no "primeiromundista" Jerry Springer, sucesso na televisão americana há algum tempo.

Não sou contra programas popularescos. Acho que têm seu público e devem se aproveitar de casos como "marido conta à mulher que é gay e destrói seus sonhos de criança", desde que oscilem entre as tênues linhas éticas. O que incomoda mesmo é a lavagem cerebral. Ir para a rua e ouvir quatro vezes no mesmo dia (aconteceu comigo) "Baba Baby", sem que você tenha solicitado ouvir a referida canção é um pé no saco sem tamanho.

Alento é saber que todos esses fenômenos mercadológicos têm seu fim predeterminado. Não duram muito. Triste é lembrar que daqui a pouco já surge alguma outra invenção para ocupar o seu lugar.

A grande arte sempre será atemporal.
escrito por Ricardo Sabbag, às 8:19:06 AM.

junho 3, 2002

CAIXINHA DE SURPRESAS

Volta e meia sou surpreendido por algum e-mail inusitado em minha caixa postal. Não, não falo de spams entupidos com inúteis petições on-line, ou especulando sobre a possibilidade do atentado ao WTC ter sido previsto pelos desenhos da nota de vinte dólares, pfuf.

Pois bem. Dia 20 de maio, recebi o seguinte e-mail:

Hola Alexandre, mi nombre es Gabriela Bade, soy periodista del diario El Mercurio de Chile y estoy escribiendo un artículo sobre la música Axé, gracias a que aquí es una invasión. Ahora mismo hay en pantalla unos dos grupos de Axé bailando y mañana habrá más y más. El asunto es que estoy buscando el origen de todo esto y como me encontré con un artículo suyo me preguntaba si podría conducirme a algún punto en mi búsqueda. Me explicaron que el Axé tiene un origen muy popular, y que incluso hay algunas canciones de Axé Music con algo de sentido social (por su origen). Ese punto me parece muy interesante, pero me parece que no he llegado a nadie que me lo pueda explicar. Incluso hace unos días hablé con un abogado de la empresa Furacao (detrás del fenómeno en Chile) y me contó cosas bien increíbles como que la Axé Music tiene ya 30 años de existencia. Yo solamente quisiera confirmar esto.

Si me puede ayudar con esta información, le estaré muy agradecida.

Ela certamente chegou até o meu nome movida por uma busca no Google, que deve ter resultado no texto "Axé Music Tem o Seu Valor", publicado em minha abandonada página pessoal "Pensar Enlouquece". Como se vê, nem sempre o Google oferece as melhores respostas para as perguntas mais capciosas. Mas enfim, tentei ajudá-la no que podia: pesquisei alguns links que poderiam ser úteis na matéria, e, com um portunhol pra lá de tosco, expliquei que a axé music era um singelo gênero no qual "las nadegas tienem major importancia do que los instrumientos musicales".

Não recebi resposta à minha resposta. Mas hoje, movido pela curiosidade, recorri ao mesmo Google para fuçar a veracidade do e-mail recebido. Pois oras, e não é que a matéria realmente saiu, no dia 26 de maio, com o título de El oscuro origen del ritmo de moda?

É. Eu morro e não vejo tudo.
escrito por Alexandre Inagaki, às 9:30:08 PM.

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