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abril 30, 2001
Pedro voltava da casa de Aninha dirigindo seu Karman Ghia, escutando Kool & the Gang e ainda pensando na namorada. Ficara de dar uma carona para Alaor até o Espaço Unibanco para o irmão ver um filme iraniano "A Flor, A Nuvem, O Abricó, coisa que o valha. Intelectualóide de merda." Aquela briga com Aninha havia sido mais séria do que o normal. Aninha falou poucas e boas. Duas ou três deixas para acabar com tudo, se ele tivesse colhões. Não teve. Alaor subiu no carro e fez algum comentário anti-tabagista. "Vá à merda, Alaor." "Você precisa aumentar seu repertório de impropérios, Doca." — Aliás, você não acha que um MD num Karman Ghia é muito desproposital? Você deveria arranjar um toca-fitas. — Você não entende nada. É o contraste, Alaor, o velho e o novo, o clássico e o avant-garde! É um statment acerca da minha personalidade... — ... Esquizofrênica... — Não torra. — Minto? Pedro não respondeu. Entre as pausas para reclamar das barbeiragens alheias, ele ruminava as "verdades" que fora obrigado a ouvir. — E a merda foi ficar quieto, ouvindo a Ana Clara falar besteira. — Porque, obviamente, não foram besteiras. Be serious, dammit! Você não ficou quieto porque quis. Ficou quieto porque sabe que ela tem razão. — Sério, Alaor, a última coisa que eu preciso agora... — ... É alguém te dando tapinhas na cabeça. Eu preciso te botar no eixo, pirralho. Você sabe que está fazendo besteira, sabe que não está certo e continua. É um reincidente, como se não bastasse. Pior, um recalcitrante! Cinco minutos de silêncio. Uma onda de alívio atinge Pedro ao esterçar para a direita na Paulista para entrar na Augusta. — Vem comigo, Pedro. — Não, Alaor, não vou segurar vela. — Você, como todo mundo, é homofóbico no fundo. O Nando é meu amigo. — Não que eu me sinta à vontade vendo meu irmão beijando um peludo. — Fino, isso. — Haha, Foi só para chocar. — De péssimo gosto. Mas é a única maneira que você consegue lidar com isso. Sendo jocoso. — É brincadeira! — Quod erat demonstrandum. — Latim de cozinha. — Que seja. Uma última coisa, Doca: você não vai ser feliz enquanto não quiser ser feliz. — Eu... — Resolve logo essa situação: a Aninha não merece isso. — Eu... — E para de achar que você é negão, carcamano. Pedro sorri e mostra o dedo médio. Alaor sorri de volta. Pedro olha para a loira de blusa verde e cabelo preso e sai com o carro devagar, para ser notado. Os primeiros acordes de Too Hot o fazem sorrir de novo. — Jung, seu filho da puta.
escrito por jm kazi, às 11:00:59 AM.

abril 29, 2001
Insensatez
Mercutio chegou ao porto cedo, quando ainda a neblina da manhã obrigava aos homens vestir casacos e gorros de lã na cabeça. O movimento era fraco. Faltava descarregar os contêineres que haviam chego na madrugada anterior. Naquele momento, nenhum estivador queria mais trabalhar. Já passava da uma hora e eles precisavam descansar, ir para a casa e para a família.
Agora, perto das seis horas, chegavam os primeiros homens, que têm de ir em busca de senhas que lhes garantam o trabalho do dia. Chegam com a barba por fazer, os olhos remelentos e a boca com o bafo de onça. Alguns bebem uma cachaça que lhes dá ânimo para o resto do dia difícil. "Pra firmá o pulso!", dizem alguns.
Mercutio não sabia por quê ela havia marcado o encontro no porto. Talvez a possibilidade de criar um cenário nolstálgico, lembrando a famosa despedida de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em Casablanca. Mas ali, o cheiro de peixe vindo do mercado municipal e os restos da lama no chão não deixavam a cena propriamente romântica.
"Romântica?", pensou Mercutio. O romance já não fazia há tempos parte da vida dos dois. Mas isso não deixava esmorecer Mercutio, que havia se preparado para a ocasião. Vestia um pesado sobretudo, que cobria o paletó e a gravata da mesma cor, fechada com um nó grosso, que se fazia útil naquele frio que arrepiava a coluna cervical. O que Mercutio não sabia é por quanto tempo ele teria que esperá-la. Ela costumava se atrasar bastante, isso quando simplesmente não comparecia a encontros que ela mesma havia programado. Isso irritou muito Mercutio quando eles se conheceram. Hoje ele aprendera a respeitar aquela característica como a tantas outras. Características que, muitas vezes, irritavam Mercutio.
Ele se encostou em um poste que havia por perto e ficou esperando-a. Decidiu que iria embora a partir do momento que começasse a suar dentro do pesado sobretudo.
Mas ela não demorou. Chegou de supetão e cobriu seus olhos, como costumava fazer sempre. Ele já sabia que era ela. Já antevia sua chegada assim, aliás. Não sorriu. Virou-se com sua feição parcimoniosa e esperou as palavras dela.
- Você poderia pelo menos fingir estar feliz em me ver.
- E você sabe que me fez prometer ser sincero em uma de nossas últimas discussões.
- Mercutio, você realmente consegue estragar tudo quando quer, hein?
- Foi pra isso que você me fez viajar até aqui?
Pausa dramática.
- Claro que não.
- O que você quer, então?
- Queria te ver, Mercutio. É pedir muito?
- E por que tinha que ser em Paranaguá?
- Porque eu tô morando aqui agora?
Mercutio deu uma risada de escárnio que não colaborou para a mudança de humor dela.
- Você em Paranaguá? Você? Que não agüentava nem o calor da piscina do country club? Nessa terra abafada e fedorenta? Taí... você conseguiu me surpreender!
- Seu merda, eu não tô aqui porque quero!
- E tá por quê, então?
- Porque precisava de trabalho. Não consegui trabalho em Curitiba.
- Difícil mesmo alguém querer empregar uma guriazinha que nunca fez nada na vida além de dirigir os carros do papai.
- ... Olha, já vi que você não tá pra brincadeira. Quer saber? Desculpa, tá? Volta pra casa. Foi um erro ter pedido pra você vir pra cá. Tchau.
Ela virou as costas e foi embora. Qual seria a reação de Mercutio que ela esperava? Que ele fosse atrás dela e pedisse desculpas?
[continua]
escrito por Ricardo Sabbag, às 11:54:10 PM.

abril 19, 2001
Faltou dizer do mar Faltou falar que já não mais Tudo ou nada, irmão É verdade, querida Já é hora, patrão Sou caso perdido, amiga Deixa que faço o nó Deixa que apago a luz Deixa que escrevo a nota Deixa pra faxineira Não vale a pena arrumar A vida? Passa.
escrito por jm kazi, às 9:35:07 PM.

abril 9, 2001
"Acho que nunca mais vou conseguir dormir. Não enquanto não souber quem eu realmente sou."
Pedro viajava, novamente, olhando as luzes da cidade imensa. Não importava por onde andasse, não havia cidade maior que esta. Não havia cidade menor que esta.
Lembrava Pessoa e olhava a cidade. "Não é o Tejo, com certeza, lá isso não é."
— Alaor! Ô Alaor, qual é mesmo o nome do Empurra-empurra?
"Monumento às Bandeiras. Porra, esse Alaor responde tudo."
Mais uma vez ele estava aqui, com a consciência pesada, mais um coração partido, mais uma prova da sua ineptude ("Preciso checar isso com o Alaor, será que é ineptude mesmo?") em relacionamentos. "Mais uma vez sozinho, na cidade suja." Quase ri com a piada.
"Quantas pessoas ririam com essa piada?"
Achava que era mesmo esse o problema com as pessoas. Que faltava cultura, que faltava sustança. Que não havia mais pessoas como o Alaor.
— Ô Alaor, se eu fosse viado e você não fosse meu irmão, eu te pedia em namoro!
"Ele nem responde, o viado. Pelo menos ele sabe quem ele é. E eu fico aqui nessa punheta de dor e sofrimento e de não conseguir dizer o que sinto."
Pensava na Aninha, que há uma semana o deixara. "A Aninha também sabe quem é. Pô, tão pirralha, a Aninha, e sabe mais da vida que eu."
— Pragmática até a medula.
Alaor resmunga.
— Eu disse que a Aninha é pragmática até a medula! - berra.
"'Eu é que não sei o que quero da vida', vai à merda, pensa que eu não sei? Esse é o meu problema: eu sei quais são os meus defeitos. E já me disseram mais de quinhentas vezes o que eu tenho de fazer. Pensa que é fácil?"
Solta mais uma baforada olhando a fumaça se misturar à poluição.
"Se fosse fácil eu não estava na merda de novo."
Olha o Shakespeare na estante, esperando ser lido.
"Esse cara deve ser o mais citado da história. Aliás, tudo hoje em dia tem me parecido xerox do xerox do xerox. Ninguém vive mais, todo mundo copia frase de novela, ou de seriado. De novela, com mil colhões!"
— Ô, Alaor, quem disse aquela frase das pessoas cuja vida é uma citação?
"Oscar Wilde. Porra, esse Alaor sabe tudo!"
— Alaor, diz aí, quem eu sou?
escrito por jm kazi, às 9:33:35 PM.

abril 3, 2001
Um poema escrito nos meus tempos de aluno de cinema na FAAP, meio empoeirado, escrito em um dia de extrema irritação com os mauricinhos alienados que infestavam aquele curso.
Sala de Aula
Solidão, sólida rocha.
Nesta sala de aula Hienas numa jaula
Palestras, palavras ao penico Para céticos, cínicos, cênicos
Raros questionamentos Entre rostos sonolentos
E sobras de sombras Em árido garimpo
(sei lá o que será feito, o que vier eu aceito)
Quem sabe eu fosse mais feliz Se agisse como esses imbecis?
Solidão, sólida rocha.
escrito por Alexandre Inagaki, às 2:25:58 PM.

abril 2, 2001
eu posso suportar tudo
eu posso suportar os seus pés pisando os meus com força os sons que eu ouço e que são brutos só para me magoar as minhas mãos que enrugam com o olhar conciso de desprezo a decadência que me suga continuamente por que eu mereço
eu posso suportar tudo
eu posso suportar as surras que a rua me dá no dia-a-dia os supermercados de amor vendido que não saciam nada em mim o estupro, a violência e a dor da inocência que eu perdi o fim do mundo de mármore das influências que construí
eu posso suportar tudo
eu posso suportar os carros que passam frios no asfalto quente os sonhos que se sonham nos pesadelos que eu tenho com gente a fuga simples e vazia do cotidiano mais que entorpecente a idéia da morte que seja a mais suja e fria e só e lentamente
por que eu posso suportar tudo
o que eu não suporto é a felicidade que espreita a minha desgraça e vai embora deixando como véu sua esperança - branca
levemente -
escrito por sweethell ., às 11:26:24 AM.

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