fevereiro 24, 2001

VER A CHUVA CAIR NÃO É TÃO BOM QUANDO VOCÊ ESTÁ (MAIS) LONGE

escrito por Ian Black, às 2:33:49 PM.

fevereiro 19, 2001

Discutir é saudável, na maioria dos casos.

Mas ontem, depois de uma discussão com um artista plástico, um jornalista, uma advogada e um músico sobre filmes indicados ao Oscar (cenário: Barnaldo Lucrecia, um desses barzinhos rotulados de outsider em Sampa, com mesas de madeira, decoração brasiliana, super rústico, com um MPB ao vivo em voz e violão, enfim, um lugar assimmmmm, suuuuuuper tuuuuudo, entende?), voltei pra casa triste.

Triste de tristeza sem reposta ou analgésico. Triste e com dor de cabeça, dor na boca, dor no ouvido, dessas dores que só param quando o intelecto, a lógica, as idéias concatenadas, a opinião formada, o senso crítico dão um tempo pra gente.

Porcaria, mil vezes porcaria, todos os filmes a que assisti com um olhar crítico, previamente munida de informações sobre o elenco, a biografia do diretor, da mãe do diretor, do roteirista e algumas dúzias de críticas publicadas no Caderno 2, na Ilustrada ou na coluna do Arthur Dapieve.

Porque fui armada intelectualmente até os dentes. Tá, e daí se o filme é revolucionário, ganhador de Palmas e Ursos de Ouro se não me fizeram SENTIR nadinha, já que a pretensa cinéfila tava com a cabecinha gorda de pensamentos conspiradores?

Quantas vezes meu lado dito “intelectual e racional” não abafou catarses, não mandou as emoções pra putaqueopariu... Merda, merda, vou gastar uma pequena fortuna pra alugar filmes a que assisti com a pretensão de discutir as suas ideologias, fotografias, filosofias. God, só quero ser conduzida pelo diretor e pelos personagens exatamente para os lugares aonde eles querem que eu chegue: medo, choro, risos, reflexão, depressão, euforia, esperança, raiva... E vida longa ao cinema.
escrito por Suzi Hong, às 7:26:04 PM.

fevereiro 17, 2001

[continuação da velha história de Mercutio, meu amigo honesto]

Beijar alguém na boca significa muita coisa. E acho que não significa mais só para mim. Acho que se tornou uma espécie de emblema da sexualidade pós-hippie que define quem é quem, quem curte o que e quem quer curitr o quê com quem.

Eu e Carolina havíamos nos beijado bastante aquela noite. Mas foi em outro momento. Foi em um momento em que os hormônios falaram mais alto e eu não me importava se estivesse fazendo merda ou não. Queria ficar com ela, e sofrer com todos os carinhos que ela faria em mim durante o sexo, mas que guardaria para si no momento que nossos corpos se separassem.

Mas agora a questão era outra. Responder ao beijo de Carolina significaria muita coisa. Como um casal que se encontra em uma noite e perpetua seu estágio de relação duradoura após a quebra do dogma. Existe uma grande diferença entre um beijo qualquer, desses que se dá em alguém conhecido em momentos de paixão, como os que eu e Carolina havíamos dado naquela noite, e o beijo promissor; o ponto de partida. A entrada para uma aventura que não se sabe quando vai parar ou se vai parar. O beijo, amigo, é a véspera do escarro.

- Nós não podemos fazer isso, Carol.

- É cinismo, né? Só pode ser cinismo.

- Não, não é. Não quero mais isso. Não quero mais que a gente passe esse tipo de noite, e que...

- A gente só fez sexo.

- Tá vendo!? Não é só sexo, porra nenhuma, não! Você sabe o que isso significa pra gente. Não é a mesma porra de sexo que você fez com o cara no ano novo.

- Ai, de novo isso...

- É, de novo isso. Porque é exatamente esse tipo de exemplo que serve pra te mostrar como eu me sinto nessa história toda. Antes nós fazíamos sexo, até que você "só" fez sexo com o cara pra depois vir "só" fazer sexo comigo. Tá pensando que eu sou o quê?

- Não, você que deve tá pensando que eu sou... que eu sou puta, sei lá. Isso não é legal, Mercutio. Você sabe que não é isso que eu sinto por você.

...

Minutos, segundos, frações de segundo que demoram uma eternidade. Tem horas que o silêncio te consome, e já não há mais nada pra se dizer, porque o silêncio conta tudo. Nem o beijo há mais de resolver. Beijo depois de silêncio desses, só de despedida.

- Um beijo, tchau...

E saiu, como se estivesse desligando um telefone na minha cara.
escrito por Ricardo Sabbag, às 3:52:31 PM.

fevereiro 16, 2001

REENCONTRO
[a A.I.]

I. A MENINA E O HOMEM

A menina saiu do quarto,
atordoada com seus próprios passos,
com seu sorriso apagado.

Perguntou, chorosa, ao Homem
sentado na sala, com os braços em concha:
- A quem posso culpar, se me apagam o sorriso
sem que eu reaja, sem que eu veja
a borracha cruel e veloz
do tempo e dos defeitos meus?

Temerosa, a menina,
sentou-se pequena
na concha quente da sala,
com medo de que lhe apagassem
também o Amor.

“Amor tem sete faces”.

Tranqüilizou-lhe o Homem
com voz de maré alta;
repouso de luar e corações de meninas
cansadas e escondidas em corais
que brilham em dias claros
e cortam em noites frias.

A menina corou em sorrisos
que brotavam de seus olhos.
Sabia que amava-lhe – o Homem.
Mas ela menina, pequena, pequena
medrosa, mimada e má,
nada poderia Lhe dar, a não ser
perguntas tantas que O faziam
desatar Seus braços em concha
em um grande grito de impaciência.

E lhe apagavam o sorriso de novo,
e fugidia gritava palavras que O queimavam –
águas-vivas.

Salgava sua própria face, em protesto surdo;
largava-se no chão até silenciar
os gritos de angústia Dele; e
por fim, voltava para seus corais,
esconder-se do medo, da culpa e
da iminente e quase certa morte do Amor.

II. O MENINO E A MULHER

O menino entrou pela porta da sala
encharcado de suor e chuva,
os olhos em pânico, pois perdera novamente
seu guarda-chuva e sujara os sapatos novos.

Choroso, cansado, encontrou a Mulher
deitada em sua cama em flor.
Em dor, o menino recostou sua cabeça pesada
sobre os Seus seios mornos,
e adormeceu ouvindo velhas cantigas de Amor.

“Amor tem sete faces,
e todas me amedrontam.
O mundo, sete mil faces,
e só uma me ilumina.”

O menino acordou
à luz que lhe secava o corpo.
Fitou longamente os olhos da Mulher
e gritou por não poder atravessar
o sorriso incrustado em Seu rosto,
porque perdera, junto ao guarda-chuva,
as chaves em forma de estrela-do-mar.

A Mulher inerte abraçou-o,
aquecendo-lhe as mãos,
alisando-lhe o rosto.
Tranqüilizou-lhe a Mulher:
Eu vou mudar a tranca
do meu sorriso fugidio.

O menino surdo em não poder gritar
não ousou Lhe dizer que
Sua face não mais iluminava
as noites escuras;
que Seus cabelos lhe prendiam
em algas emaranhadas.

O menino saiu pela mesma porta que entrara,
fugindo da luz fraca e do cheiro de areia.
Pequeno, pequeno e impotente,
perdeu-se na multidão de mil faces,
em busca de seu guarda-chuva.

III. O HOMEM E A MULHER

O Homem entra pela porta.
A Mulher sai do quarto.
Entreolham-se pela primeira vez
desde a infância de um Amor precoce.

Recordam-se menino e menina,
choram calados pelo que não souberam
dizer, dar, perder, errar e aprender.

Recorda-se a menina de seus sorrisos apagados;
recorda-se o menino das mil faces que perdera.

Choram a mesma dor e o mesmo medo,
pelo mesmo Amor que Lhes mostrara
sua face mais escura – a que suplica morte,
a que não se sustenta mais neles:
menino e menina.

Movidos pela brisa do mar,
Homem e Mulher olham
para as cicatrizes mútuas,
de cortes em corais da noite,
de gritos surdos e molhados de chuva.

Cegos por razões dissonantes,
Eles (Nós) abraçam-se em concha,
e Se protegem da tempestade tortuosa
de pensamentos confusos e sentimentos claros
debaixo de um velho guarda-chuva.

E Se consolam na certeza
de que o Amor tem infinitas faces,
sem trancas, sem chaves, sem razão.

escrito por Suzi Hong, às 6:39:06 PM.

fevereiro 15, 2001

Tirante aquela noite em que nós choramos, juntos, aquela noite, lembra? Aquele pós-coito incômodo, os dois se olhando, a certeza de que não restava mais nada. Mais nada.

Exceto aquela noite, quando estivemos juntos?

Nunca estivemos tão próximos. A distância evaporara "como as lágrimas", você diria. Naquela noite nós fizemos tudo, tudo o que nunca tivemos coragem de fazer em anos. Arrastamos a relação por anos até chegar ali. E ali nós nos conhecemos, enfim, naquela que sabíamos nossa despedida. A última vez. A derradeira.

Não iríamos mais nos ver, esse era o trato. De alguma forma nós sabíamos que o que havia acontecido ali tinha sido um erro. Mas era a coroação de erros sucessivos. Anos, repito. E aquilo, que foi liberador, que foi catártico, foi também a constatação do fim.

Ainda não nos vimos. A promessa é difícil de manter. Estávamos viciados. Tabaco, morfina. "Como é que eu vou viver?", e eu disse que você iria ficar melhor que eu. E você soube que era verdade.

Nunca mais chorei, sabia? Nunca mais.

Nem quando você morreu.
escrito por jm kazi, às 9:13:44 AM.

fevereiro 12, 2001

Sonhos sonhados -- baixo colesterol.

Uma casa recorrente, estive nela em vários sonhos. Penso se durante o sono passamos a uma dimensão paralela. Só isso explica a mesma casa. Sempre ando dos fundos para a frente da casa, às vezes por dentro, às vezes por fora. O chão é de lajota cor de laranja queimada, as paredes brancas e tem um portão no meio do caminho. Passo por ele, mas não lembro se o abri ou se ele estava aberto [faz diferença, doutor?]. Um jardim alto à direita, portão de garagem à esquerda. O telefone toca, está na minha mão. Geralmente acordo quando sonho com telefone tocando, por que não agora? Ah... Não, não tocou, lembrei, eu apenas o coloquei na orelha e do outro lado tinha alguém. Penso num aparelho que permitisse ouvir os pensamentos de outra pessoa mas não é o caso. Repito alô três vezes até a pessoa do outro lado responder. Está conversando ao mesmo tempo em outro telefone, não esperava que eu atendesse tão rápido. Ouço parte da conversa e não gosto. Ele diz ''espere um pouco'' e se afasta, falando no outro telefone como se falasse comigo. Se atrapalhou. Mas é tarde demais porque já desliguei. E acordo para não atendê-lo de novo.

Se você sonhou comigo esta noite tome mais cuidado. A linha estava cruzada.
escrito por naomi ., às 5:06:25 AM.

fevereiro 8, 2001

Dói.
E, quando dói, você quase nem sente mais.
Você sabe que dói, mesmo sem sentir. A dor... é uma das coisas que sobraram. Uma das poucas coisas.
A dor é concreta, não é sonho. Ela ainda está com você.
Dói e é quase bom. Você quase gosta da dor.
Você, na verdade, busca a dor. Só não se decidiu ainda se o faz por que precisa se punir ou porque gosta de sentir. De sentir alguma coisa.
Qualquer coisa.
Até mesmo a dor.

Dói.
E, quando dói, você se sente vivo.
escrito por jm kazi, às 5:23:26 AM.

fevereiro 3, 2001

Do Jornal da Lilian [a Witte Fibe]:

---
O CÉREBRO JÁ MANDA MENSAGENS AO COMPUTADOR
Nosso outro tema deste fim-de-semana é uma tecnologia que está sendo desenvolvida para "ensinar" o computador a ler os sinais emitidos pelo cérebro humano através de eletrodos.
O autor da idéia defendeu tese de doutorado na Universidade de São Paulo, foi aprovado e está prestes a assinar acordo com o laboratório do sono da Universidade Federal de São Paulo.

FICÇÃO CIENTÍFICA?
A tecnologia parece ter mil e uma utilidades; poderá, aparentemente, ser usada em jogos eletrônicos, por exemplo. Mas nosso entrevistado diz ter feito o trabalho pensando nos tetraplégicos, que hoje só podem se comunicar com o computador através da língua e do sopro.
Eles poderão, talvez, movimentar o mouse (por enquanto apenas para a direita e para a esquerda) usando unicamente a concentração cerebral.
---

Não sei se vocês sabem, mas um dos meus planos é viver o suficiente para ver mais do que isso: ver a comunicação entre pessoas distantes sem a intermediação do computador [nem telefone, tv, etc]. Parecido com telepatia num estágio mais avançado -- transmitir, além de pensamentos, sensações como o gole de uma cerveja gelada, a visão de um quadro bonito, uma música... Claro que teria que ter um jeito de não acontecer linha cruzada pois a comunicação seria com mais de uma pessoa ao mesmo tempo, como no ICQ hoje em dia. Rapaz, isso vai ser legal...

&

Pergunta do pedreiro, essa semana: vai pintar de que cor? Primeiro impulso: gelo. Não tem como errar. Bah, mas gelo? Não quer pôr uma corzinha mais alegre? Segundo impulso: amarelinho, neutro. Pô... com esse lindo tom de pele que eu tenho, de batatinha inglesa anêmica, vai ser o primeiro caso de mimetismo humano da história. Cor de rosa ou salmão: de jeito nenhum, tenho trauma. Lilás ou azul: desbota rápido. Cinza e preto: tá maluco?! *suspiro*

Tá, a cor a gente decide depois. A porta da cozinha vai lá pra trás, coloca a pia ali, põe mais três tomadas, fecha aquele corredor improvável e faz um lavabo. Grade na janela?? Portão de três metros?? Cara, a gente mora em Pompéia, esqueceu? Não, NÃO vai tirar a parede de vidro da varanda! Que coisa. Tou deprimida... Falta muito pra terminar?

[]'s
Lu.

PS: Eu quero ir pra minha casa...

escrito por naomi ., às 6:47:17 AM.

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