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janeiro 23, 2001
O melhor do rock in rio não foi o R.E.M., pasmem (e xinguem depois de ler o texto, please)
I know, I know, vocês foram bombardeados com notícias sobre o Rock In Rio III, e acredito que vossos preciosos saquinhos estejam cansados com a cobertura do evento sendo feita (ainda!) por todos os jornais, canais de televisão e rádio, além de gente que parou no tempo do Rock In Rio I e II discutindo horrores em mesas de bar, gente que se pergunta por onde andam o Go-Go’s, Skid Row, Slash, New Kids on The Block, Debbie Gibson, Dee Lite, e outras coisas que passaram por lá, gente que enche o saco com papos-cabeça sobre o slogan do evento “Por um mundo melhor”, e sobre a coerência de terem sido convidados para um evento de rock’n roll coisas como Sandy & Junior, Britney Spears e uma dessas boy bands que não lembro o nome agora.
De bom mesmo das edições anteriores ficou o jingle “se a vida começasse agora, se o mundo fosse nosso outra vez...”, que eu fiquei, em vão, caçando no napster e audiogalaxy.
Mas bom mesmo foi, apesar de todo meu ceticismo com relação ao evento, ter ido ao Rio na porralouquice dirigindo a uma média de 140 km/h pra assistir aos shows do dia 13 – no palco Cássia Eller (cool), Fernanda Abreu (bah), Barão Vermelho (good), Beck (ah, super, é tuuuudo), Foo Fighters (yeah) e R.E.M (amém).
Sim meus leitores, vou poupá-los de meus comentários sobre os shows que consegui assistir ou qualquer texto do tipo “Repórter por um Dia”. Vou me negar a expor minhas impressões sobre a performance das bandas, o clima do lugar, o rango e a bebida, a via crucis pra chegar na cidade do rock e as praias da Cidade Maravilhosa, devido às minhas limitações para textos jornalísticos. Não sou Arthur Dapieve e não escrevo pro COL.
A única coisa que faço questão absoluta de mencionar é o fato que narro a seguir, presenciado por mim em um estado pouco fora do normal, mas que na hora me deixou com os olhos rasos d’água e desviou toda minha atenção de Michael Stipe e sua trupe, porque de repente fez-se o silêncio e toda multidão ao meu redor ficou em slow motion graças a uma menina linda, cujo nome desconheço, mas que gostaria de chamar de Clarice. Clarice, Clarice, a menina dos olhos nus.
Clarice tinha cabelos longos e levemente ondulados. Tinha um nariz arrebitado e bochechas rosadas. Tinha cara de anjo, vestida em sua blusa azul turquesa e jeans surrados. Anjo caído do céu e estava perdida no meio do mundo, pois se agarrava com as duas mãos a uma alça de mochila de um rapaz moreno e baixinho, coadjuvante importante nesta história, que usava chapéu de pescador (vou chamá-lo de Pedro).
Clarice não tinha asas como os anjos, pois as perdera no seu caminho pro mundo. Clarice não reclamava dos bêbados que a empurravam, nem do cansaço por estar de pé há mais de três horas, nem do suor que evaporava da multidão que a cercava, nem do monte de lixo em que tropeçava. Ela falava baixinho longas frases ao ouvido de Pedro. Pedro respondia, sem tirar os olhos do palco, a tudo que Clarice lhe perguntava, agarrada na alça da mochila e balançando seu rosto, como uma criança faz quando entende as coisas.
Clarice não abria os olhos, mas sorria quando a brisa batia em seu rosto e deixava-se levar por todos os sons que ouvia. Clarice gritava na direção errada “Mike, Mike, I love you”, mas sei que o vento levava sua voz pro lado certo. Não posso assegurar que Mike Stipe tenha ouvido os gritos de Clarice, que vinham a poucos metros do palco; não posso dizer se o cara identificou o rosto de Clarice no meio da multidão, porque eu mal conseguia enxergar o palco com meus um e sessenta de altura.
But it really doesn’t matter. Para meu conforto, Clarice tinha os olhos nus e podia ver tudo o que queria do jeito que imaginava. Acredito que ela tenha visto sim um Mike Stipe tão bonito quanto à voz cantando-lhe “don’t let yourself go, ‘cause everybody cries, and everybody hurts sometimes. Sometimes everything is wrong, hold on, hold on”.
E quando Pedro, ao fim do show, contou a Clarice que havia bananas coloridas, golfinhos, faróis, bromélias e macacos iluminados flutuando sobre o palco, esbocei um sorriso e pude voltar pra pensão com a certeza de que eu assistira ao melhor show da minha vida. E Clarice também.
escrito por Suzi Hong, às 8:35:17 PM.

janeiro 22, 2001
* oNdas do DesTino
Bocejos e baba e olhos pesados. um fone no ouvido e um usuario gritando "alô". dizem que no espaço ninguém ouve seus gritos. nos meus sonhos, idem. deixei a luz do receptor de ligações acesas, o usuário ainda gritava e eu fui beber um copo de água, bebi outro e mais um.
peguei o jornal, um caderno, dois e tres. olhos ainda pesados e eu passeando pela terceira vez pela terceira linha. onde estou no texto?
o botãozinho de foda-se já está ligado há algumas horas. mais algumas e eu já estou no ônibus. Should we talk about the weather?
...and I will sing a happy song...
em casa, um desenho na televisão. Alemão, sim, os personagens falam em alemão. Pergunto por que meus irmãos e cunhados por que estão assistindo um desenho em alemão. pergunto outra vez e me respondem que ninguém está falando alemão no desenho. presto atenção, poderia ser espanhol, francês talvez.
peru e macarrão e molho italiano. o são paulo ganha de 2 a 0, mas daqui a pouco o galo vai empatar. desligo a televisão do quarto da minha mãe e vou pra sala onde ainda assistem ao desenho torre de babel da minha cabeça. então meu irmaõ coloca uma fita da festa de confraternização de sua empresa e eu vou pro quarto ligar o computador.
Já falei *** cansei de falar e cansaram de ouvir, não? *¨, minha janela é uma das coisas mais lindas que aconteceram nas últimas semanas, e em outubro, nos últimos meses. eu vejo casas sem rebocos e casas amontoadas. sim, é muito feio, mas inofensivo em certos aspectos. tem pessoas na rua tomando sorvete e queimando a pele marrom no sol. ainda tem crianças na rua. aqui é um inferno arquitetônico, mas temos crianças na rua, (mostrando a língua).
Marquinhos, Marquinhos, tem gente chamando (eu também sou marquinhos e um dia explico por que)!!! é o coro que vem da sala. Entra ae, Porra! falo pro marcão. quem é "Po"?, pergunta de luciana, de embú das artes. Não falei Po, falei Porra, e não é porra, é o marcão. enta ae, marcão.
Marcão trabalha de madrugada, com suporte técnico e ouve usuários tão chatos quanto eu. marcão faltou no ano novo para divertir-se e esqueceu dos usuários, mas seu chefe não esqueceu. agora ele precisa da minha ajuda para criarmos uma nova realidade. agora, no ultimo dia do ano passado, ele bateu o carro e não pode ir trabalhar. estamos todos felizes e bêbados com sorvete de creme e de morango misturados e fanta laranja e pipoca.
preciso ir ao campo limpo, preciso criar um formulario para postagem do futuro e-zine. o marcão dá uma carona no seu fusca com a frente batida. ele teria um bom álibi no seu futuro alternativo. estava meio garoando e eu desci em frente a igreja.
toquei a campanhia e o cocker fedorento do meu primo veio ate o portão. subi as escadas até o quarto do meu primo (irmão do dono do cocker fedorento). ele sempre joga video game. (agora está jogando Final Fantasy II, um RPG.), olho o finzinho do sol e a garoa gostosa. nem lembro mais se no resto do dia fez sol ou não. então ele termina o jogo.
testes e mais testes e textos, html, cgi, bin, e um monte de códigos que eu ainda tento forçar para entrar nesta cabecinha. vamos tentar colocar o formulário num link da enloucrescendo. putz, não rolou. vamos ter que colocar na página do próprio servidor, no jornal ouvidor (até rima, então, pode dar certo). testes e testes e agora deu certo. vamos fazer o redirecionamento para a mail do inagaki... o telefone dele para confirmar, será que eu sei de cabeça. acho que sim, sim, eu sei. ligo pra ele, uma duas tres. deixe seu recado ou cale-se para sempre. "www.jornalouvidor.com.br/enlou.html" lá tem o endereço para acessar e assinar o spamZine. o feng shui não mente jamais, non?
meu primo mostra uma musiquinha de um jogo, em mp3. bonita música. "ouçam esta música e cuidado para não chorar", este era o aviso na página que abrigava o link para a música. sim, se eu estivesse em casa, sozinho, eu choraria com certeza. a música é em japonês, ela pode estar falando qualquer outra coisas, mas eu procuro um significado para mim...
...vai ser difícil alguém pronunciar a melodia que esta dança dá...
vem almoçar (é o primo do cocker fedorento). aumento o volume da música, toc toc toc na porta. vem almoçar (de novo). desligo e desço as escadas. carne arroz com coisinhas verdes e amarelas e feijao e coca cola. vamos pra sala assistir os dinossauros. voltar pra cozinha e pegar a revistinha do avon e comprar aquela loção para limpar o rosto. e esta loção arde depois que eu me barbeio.
a garoa aparece de novo, mas bem pouquinho. desço uma rua, viro a direita, desço, e desço e pego um ônibus. já são quase 22 horas e ainda tenho que assistir "ondas do destino". minha cunhada havia assitido ontem, gostou. coloco a fita, paro a fita, lavo o rosto e passo um creme de argila e o rosto endurece, a fita continua, as palpebras pesam, a fita para, cozinha, pizza portuguesa requentada, guaraná. a fita continua, o telefone toca, a fita para. inagaki comentando a página?
- oi marquinhos
a voz é de mulher, eu não reconheço, mas eu nunca pergunto quem é...
- oi, como você tá - fala mais um pouco, fala... - faz tempo que eu não te ligo, né?
Viviane, uma amiga, 16 ou 17 anos, não me lembro. como qualquer garota da sua idade, vive suas crises existenciais (eu tambem vivo, e daí?) e acha que é a única no mundo (opa, eu não faço mais isso). já não me ligava há algum tempo. já nos beijamos há pouco mais de um ano. mas ainda contiuamos amigos.
- estou sozinha em casa. meus irmãos sairam, minha mãe tambem.
será que ele quer que eu vá na casa dela? putz, a essa hora (23 horas), e ela mora bem longe.
mas não, ela só quer conversar. diz que sou o único homem que merece a confiança de suas palavras.
- Estou com o Fábio, ele quer algo mais sério, mas não sei se vale a pena entrar com tudo na relação, me apaixonar. não quero me machucar.
- Nada é certo, nada dura para sempre. viva seu presente, seu momento. apaixone-se (ela chora). pode ser que amanhã tudo acabe, mas o importante é que você viveu o seu momento. Você pode não querer nada e amanhã tudo acabar, então, você não ganhou nada.
Expliquei o quanto gostaria de estar apaixonado, mesmo que não fosse correspondido, só pelo prazer de olhar todas as coisas de outra maneira. até as pedras dão risada quando você está apaixonado. E ela era uma pessoa de sorte por ter a oportunidade de apaixonar-se, e que não deveria deixá-la.
Ela agradeceu-me.
*** desligou.
a fita continua... ... ... zzz zzz zzz sono. paro a fita, desligo o video e a tv. vou ao banheiro escovar os dentes e tirar a argila do rosto. vejo alguns mails e arrumo a cama. coloco o travesseiro e vou dormir. acordo no meio da madrugada, mas agora eu estou no sofá da sala com o meu travesseiro. o sono é mais forte do que a minha a dúvida sobre como eu fui para no sofá. entro no quarto novamente e percebo a janela aberta. fui abduzido e os alienigenas foram descuidados e me colocaram no lugar errado? acho que só ficaria acordado se a Scully aparecesse na minha frente para resolver o caso (e iniciar outro comigo).
beijos
Ian.
escrito por Ian Black, às 5:58:08 PM.

janeiro 17, 2001
nota rápida: slow fuck.
sem dúvida é um paradoxo, uma nota rápida para uma foda lenta, mas a motivação vale a contradição: está batendo nos meus ouvidos, nesse exato momento, o set de house music de um recém-conhecido. e uma das músicas mais interessantes desse set, onde raramente se ouve algum vocal (e talvez toda a graça resida aí, quem sabe?), é justamente a voz alterada de um homem (mas que poderia muito bem ser somente um vocoder) dizendo somente isso a música inteira:
slow fuck.
e eu fico aqui, pensando um pouco mais superficialmente do que gostaria (pois existe trabalho a ser feito) que talvez slow fucks fossem a solução para muitos dos problemas do mundo. fica a promessa de desenvolver isso mais tarde. de repente, quando a música acabar.
escrito por sweethell ., às 6:54:52 AM.

janeiro 16, 2001
Agora que metade do mês de janeiro já se foi, por sorte esqueci todas aquelas resoluções de ano novo que a gente faz quando tá com muito espumante de maçã nas idéias acreditando piamente que pode mudar uma vida inteira na virada do relógio e acorda no dia seguinte enjoada e querendo muita água; então... agora só tomo resolução de próxima encadernação. Assim não me sinto culpada e quem sabe até cumpra uma ou outra como ir ao dentista mais regularmente, por exemplo, e não sofrer esta dor de dente que estou sofrendo depois de quebrar um molar com um biscoito crocante. Mas, graças aos óculos de Pollyana que uso e que me permite ver o lado bom de tudo, descobri nessa madrugada que não conseguir dormir por causa de um nervinho dentro da gengiva é... interessante, no mínimo. Desisti de fritar na cama às duas da manhã desafiando raios e trovões e liguei Frank pra dar uma espiada na netland. Aproveito pra checar quantos usuários conectados no servidor, roteador ok, nem pensar em baixar alguma música porque o link tá perto da capacidade, fecho o telnet e abro o que realmente interessa. E é aí que me dou conta de que estou esperando que ele esteja lá. Sempre espero que ele esteja lá e que me chame mesmo que não me veja porque estou sempre escondida e às vezes não respondo por medo. Eu tenho medo do que sinto por ele, quero que ele saiba disso mas não quero dizer e espero enquanto aquela flor verde-vermelha-verde-vermelha vira um olho oblíquo e ele não está lá. Duas e meia e meu dente lateja numa casa que não tem analgésico nem gaveta de remédio quando lembro de uns band-aids com a validade vencida dentro da lata de biscoito dinamarquês na cozinha. Debaixo do band-aid e de um par de luvas cirúrgicas sobrevivente do kit-automóvel o último comprimido de um blister. Tenho que recolocar o pedaço de papel alumínio do penúltimo comprimido para ler o nome do remédio: Dorico. Sem data de validade, sem bula visível. Engulo com um bocado de água, desejando que a dor acabe.
escrito por naomi ., às 9:51:15 AM.

janeiro 10, 2001
esse texto que se segue eu o escrevi para uma lista para a qual fui chamada pelo alexandre inagaki, e o enviei logo que entrei nas discussões de então. foi um texto difícil por que muito sentido, e ficou guardado nos arquivos da lista até agora. pensei que, colocando-o aqui, talvez se perca a intenção inicial com a qual enviei-o para a lista, mas surja uma nova, mais colaborativa e universal e, assim, sua validade não se perca com o tempo. sem tirar nem pôr, com todos os erros e sentimentos, é isso.
"então, eu começo a escrever esse mail na melhor e mais egoísta das intenções, tentando nublar um pouco o fato de que não conheço, em absoluto, ninguém que vai receber essa mensagem -- com a grata exceção, é claro, do alexandre inagaki, que pouco conheço (infelizmente, ah!, as circunstâncias da vida) mas muito gosto, justamente pelo caso de ser um rapaz um tanto sentimental, e eu ter uma identificação óbvia com pessoas sentimentais. a intenção, é claro, é tentar desabafar um pouco da melancolia pensativa que vem me afligindo nesses últimos dias, com uma avalanche de inspirações malucas e sentimentos confusos que são um tanto complicados de exprimir por meios mais conscientes de ação. escrita automática tá aí pra isso.
é aquela coisa: acontece um episódio que te deixa pra baixo, e pronto, lá tu vais sendo tragado por aquela onda enorme de pensamentos correlacionados, todos eles um mais down que o outro. começa com o encanamento do banheiro, que desde que eu me mudei pro apartamento na jaú me incomoda, tão estragado que está que só deixa o chuveiro derramar uns parcos pingos d'água de cada vez quando o aquecedor a gás está ligado, passando pelo mau-humor dos garotos com quem o apartamento é dividido que mal falam "bom-dia" -- o básico da convivência entre seres humanos, sabe?, tipo cordialidade e coisa e tal -- pra me deixar pensando se eu fiz alguma coisa de errado até chegar ao início de todos os fatos, que foi uma briga estúpida por um motivo idiota com um amigo queridíssimo mas muito muito cego de ver que o futuro não é necessariamente o resultado de nossas ações quanto ele imagina. essas coisas definitivamente transformam o dia-a-dia de qualquer um numa droga, em especial quando tu já tens problemas práticos um tanto quanto graves, como descobrir que tens um rombo de 200 reais no banco ainda faltando 20 dias pra receber o sálario e ainda tem uma viagem meio que obrigação familiar pra fazer pro rio de janeiro antes desses 20 dias que tu vais passar sem um puto na droga do bolso.
mas é que brigar com amigo é uma merda. claro que isso vai dependendo das gradações, por que eu não sei pra vocês, mas pra mim existem gradações afetivas das mais variadas; eu sempre digo que a gente não pode nunca julgar pela nossa vivência, visão e conceitos as relações interpessoais das outras pessoas, por mais esquisitas que sejam, por que pessoas são esquisitas em essência e são muito, muito variadas em caráter e comportamento e tal, então nesse quesito as coisas são relativas demais. fico me concentrando então em perceber as graduações das minhas próprias relações, e posso dizer que esse amigo aí com quem briguei é tipo absinto, a bebida que foi proibida aqui no brasil por que tinha graduação alcóolica alta demais. é por aí: a graduação é alta demais e lidar com esse tipo de coisa às vezes se torna um tanto incoveniente, por que é meio complexo você tornar viável duas vontades e duas formas diferentes de lidar com a vida. praticamente impossível, mas me consola saber que eu não sou a única pessoa que entra nesse tipo de furada, que é ter amigos com altíssima graduação, e que briga com eles e fica achando que brigar com amigo é uma bosta mesmo. se fosse com aquele amigo que você conheceu há uns cinco anos atrás e com quem viver a vida sempre foi uma coisa simples e maneira, de repente tu nem ficavas magoado, provavelmente não, mas como as coisas em matéria de mágoa também são relativas a cada indivíduo eu já vou logo desistindo de entrar nesse assunto. cada um com sua mágoa, né?
até por que tem aquele lance que eu penso -- mas que, sei lá, pode estar todo errado, acrescentem aí suas opiniões --: a gente sempre acaba meio que deixando as pessoas magoarem a gente. claro que eu não digo de todo mundo, tipo a pessoa que você conheceu outro dia naquela boate tudo de bom na vida e que te perguntou teu nome, se você tava louco de ecstasy, te disse que era garçom e foi se perder no mar de gente que pagou 25 reais pra entrar ali, por que alguém assim, numa situação dessas, tem um potencial zero de te magoar, a não ser numa dessas situações surreais que às vezes acontece como por exemplo ele ser o irmão por parte de pai que você tem mas nunca conheceu e você descobrir isso ali, com ele perguntando se você tá louco de ecstasy.
eu falo daquelas pessoas que a gente deixa se aproximar. e aí vai desde aquele pessoal por quem você tem consideração mas não passa muito disso até os amigos absinto. por que todos eles têm um potencial de mágoa, mesmo que a mágoa também dependa (ao menos em geral), direta e proporcionalmente, da graduação da proximidade. mas, se você seguir a linha de raciocínio que você meio que escolhe quem serão as pessoas que você vai deixar se tornar próximas, e partindo do princípio que todos nós (eu também, uai, que eu já magoei muita gente, eu sei, é uma droga isso) temos potencial de magoar outras pessoas, você acaba chegando à conclusão simples e direta de que tu mesmo escolhes quem vai te magoar.
ok, ok, é uma teoria simplista e superficial. mas pára aí pra pensar e você vai ver que confere. não confere?
agora, o que não dá é pra todo mundo entrar na paranóia. eu acho mesmo que o mundo já anda paranóico demais. digo, todo mundo é tão fechado, todo mundo entrou na concha total, parece que por que a humanidade toda já se machucou algum dia ela precisa que cada um de seus humanos se tranque no seu mundinho individual e só divida com quem está de fora o máximo de superficialidade possível. caramba, tudo bem que ninguém goste de passar por maus momentos, independente do quão maus eles são, mas isso não é motivo pra termos toda uma sociedade estabelecida onde é cada um por si e foda-se se o outro que tá ali no canto chorando por que, sei lá, por que o irmão dele gritou com ele que ele era um merda e o cara ama o irmão pra caramba.
a impressão que dá é que só as grandes mágoas valem a atenção de as pessoas se importarem: só a fome, as guerras religiosas/territoriais, e as tragédias geográficas que deixam milhões sem nada entra ano sai ano; e que ninguém dá a mínima pra se fulano que você conheceu outro dia tá parecendo meio desanimado, se sicrano que trabalha com você tá comendo pouco, se beltrano é diferente de todo mundo e ninguém chega perto dele. todo mundo cheeeeeeio de defesas, todo mundo com medo de todo mundo, todo mundo longe, todo mundo nadando na superfície por que acha que assim vai sofrer menos.
de repente até sofre menos mesmo. mas aproveita bem menos também. por que nossa, gente, a humanidade é um troço muito, mas muito fascinante mesmo. com todos os seus paradoxos e contradições. muito doido, observe e verás.
outro dia desses uma amiga minha, uma de graduação alta e de quem ando com muita saudade, me mandou um e-mail gigantesco falando das coisas da nossa vida e me contou que dia desses ela chegou pra conversar com uma garota que todo mundo sempre achou meio estranha por que ela era muito fechada e às vezes tinha uns ataques de encontrar com você e nem falar "oi", como se você nem estivesse ali. ela disse que simplesmente virou pra garota num dia em que a encontrou e disse pra ela que sempre tinha tido a maior curiosidade de conhecê-la por que ela transmitia uma energia muito positiva, mas que não conseguia se aproximar por que a garota mal fala com alguém. e depois ela contou que foi ótimo, que elas passaram horas conversando e que ela sentiu uma sensação maravilhosa de ter podido abrir um receio, um medo dela pra alguém que ela nem conhecia e ter um feedback positivo, e que essa história toda deu um estímulo pra ela continuar tentando fazer esse processo todo funcionar.
eu fico torcendo pra essa minha amiga se dar bem nas próximas tentativas e ir lidando melhor com a idéia de ser e conviver com pessoas, pra ela aprender a se prender menos, a não ter tanto medo. na verdade eu fico querendo que ela volte a acreditar na humanidade como um todo e nas pessoas em geral, por que apesar dos seus vinte e poucos anos serem tão pouco pra algo assim, ela deixou de acreditar já há um tempão. e aí eu transponho o local pro global e fico aqui tentando, com os meus pensamentos e com minhas idéias todas, uma energia positiva pra ver se calha de todo o mundo entrar numa dessa também. por que todo mundo anda paranóico demais.
vai ver depois de todo esse desabafo corrido e sem sentido, alguém aqui nessa lista passe a achar que, mesmo sem nunca ter ouvido falar de mim, agora me conhece um pouco. é bem capaz de ser verdade mesmo. é, taí, apesar de toda essa melancolia chata por causa dessa droga de briga com meu amigo, vai ver eu estou mesmo é arrumando sarna pra me coçar, derramando um pouco do que eu sinto pra gente que não conheço, correndo o risco de arranjar mais alguém pra me magoar.
pelo menos a minha concha cada vez menos parece uma concha.
pessoal, me perdoem aí os erros de gramática, ortografia e concordância, e mais os pecados das figuras de linguagem mais mal-utilizadas que vocês já viram; acontece que eu penso mais rápido do que digito (oh!) e o mail vai sem revisão mesmo.
fiquem bem aí, e façam suas mágoas valerem a pena."
escrito por sweethell ., às 6:26:13 AM.

janeiro 8, 2001
[São Paulo, 8 de janeiro de 2001 - 9:55 p.m.]
Quando começo a trocar a noite pelo dia, é sinal de que algo vai mal, muito mal. Ainda no subject sonhos, quando acordo e vejo que não lembro de nenhum sonho, mas somente do dia ruim que tive antes de dormir e da sensação de sufoco do meu pesadelo recorrente, bom... aí, já é sinal que a casa está prestes a cair.
Se eu pudesse colocar minha vida inteira em um maço de papel, acredito que qualquer pessoa não conseguiria passar da segunda página por três razões: escrevo mal, escrevo pra caralho e minha vida, além de não ter sido muito interessante, foi uma colagem de erros, histórias que eu não escolhi viver, pessoas que não desejei conhecer.
Está chovendo lá fora agora e, por mais que eu tente, não consigo deixar de me preocupar com os pobres incautos que saíram de casa de busão ou metrô e chegarão ensopados em casa. Tenho este defeito de fabricação – sou preocupada por natureza e, conseqüentemente, chata às vezes.
Meu psiquiatra sofreu um ataque cardíaco e pôs duas pontes de safena. Já não o vejo por quase três semanas e a simples possibilidade de perdê-lo me apavora.
Fui buscar meus livros e pertences pessoais (duas malas de viagem) na empresa onde eu trabalhava e roubaram meu Renato Russo que todas manhãs conversava comigo e dividia um cigarro nas horas vagas.
Uma idéia de criar um zine formado por três meninas legais, que escrevem muito bem, são do bem – são de Aquário, e são sensíveis sem ser piegas, está prestes a ir pro espaço.
Briguei de madrugada com uma pessoa que amo, porque não soube falar a verdade do que sinto e, covardemente, fugi da raia sem pronunciar, sequer, um peraí, não era bem isso.
Quero logo voltar a trabalhar pra parar de pensar e escrever tanta merda, pra anestesiar e esquecer toda a dor do mundo, mas ainda me classificaram como incapaz para tanto. E meu psiquiatra está internado. Queria estar pouco me fodendo pra isso, para os papos sobre os últimos filmes que vi no cinema, para as listas das 100 melhores músicas pops de todos os tempos, queria ser, definitivamente, uma advogada hermética, insuportável, alienada, cheia de tailleurs elegantes e bolsas da Louis Vuitton, cujas únicas preocupações do mundo resumissem-se a: faturar 200 horas trabalhadas por mês, ganhar bônus polpudos, participar de reuniões com gringos para discutir a melhor estratégia de comprar aquela empresa brasileira, pagando o mínimo de impostos e comprando todas as ações com deságio, comprar móveis super fashion para o loft nos Jardins, recém financiado, ter um carro importado, o último modelo de laptop, motorista, trocentas mensagens na caixa postal do celular, trocentas mensagens highly confidential no meu email corporativo.
Quero ser mais uma advogadinha escrotinha e rica do mercado, que faz sexo sem amor e se envolve com assepsia com outros advogados, yuppies e netties escrotinhos do mercado. I know, toda generalização é burra e idiota, mas acreditem, hoje acordei burra e idiota e gostaria de estar feliz com isso. Mas... não estou.
Fico me perguntando por que estou escrevendo este monte de bobagens aí. Tenho vontade de sair pra rua e deixar a chuva bater em meu corpo, golpear-me a cara para ver se acordo deste sonho ruim. Só que estou besta, paralisada, já tomei mais remédios do que o prescrito, porém não percebo nenhum efeito. Fico abrindo o outlook e nenhuma nova mensagem aparece, a SUA MENSAGEM não está lá. Sinto inveja de todas as cartas que você escreveu para outras pessoas e começo a vasculhar minhas gavetas e revirar meu quarto para ver se encontro pelo menos um rabisco seu.
Fico esperando, no meio da bagunça, o telefone tocar. Preciso te contar que hoje tive um daqueles pesadelos horríveis, os mesmos de sempre, em que uma mão invisível me aperta contra o chão e não consigo mover-me ou gritar por socorro porque a dor é assassina e paralisante e invisível e sem razão de ser.
Queria abrir a porta do meu quarto e encontrar um cara sorrindo, dizendo “Menina, tudo bem, vai ficar tudo bem”. Só que acho que já comecei a virar terra, areia... que escorrem pelos meus dedos e escapam para o precipício aonde nunca tive coragem de entrar.
Se eu fosse uma música hoje, seria “Where the Wild Roses Grow”, na voz de Nick Cave e Kylie Minogue, cuja letra segue vergonhosamente psicografada pro cês:
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They call me The Wild Rose But my name was Elisa Day Why they call me it I do not know For my name was Elisa Day
From the first day I saw her I knew she was the one She stared in my eyes and smiled For her lips were the colour of the roses That grew down the river, all bloody and wild
When he knocked on my door and entered the room My trembling subsided in his sure embrace He would be my first man, and with a careful hand He wiped at the tears that ran down my face
They call me The Wild Rose But my name was Elisa Day Why they call me it I do not know For my name was Elisa Day
On the second day I brought her a flower She was more beautiful than any woman I’d seen I said, “Do you know where the wild roses grow So sweet and scarlet and free?”
On the second day he came with a single rose Said: “Will you give me your loss ad your sorrow” I nodded my head, as I lay on the bed He said, “If I show you the roses, will you follow?”
They call me The Wild Rose But my name was Elisa Day Why they call me it I do not know For my name was Elisa Day
On the third day he took me to the river He showed me roses and we kissed And the last thing I heard was a muttered word As he knelt above me with a rock in his fist
On the last day I took her where the wild roses grow And she lay on the bank, the wind light as a thief And I kissed her goodbye, said, “All beauty must die” And I lent down and planted a rose between her teeth
They call me The Wild Rose But my name was Elisa Day Why they call me it I do not know For my name was Elisa Day
escrito por Suzi Hong, às 3:56:40 PM.

Mercutio, meu amigo honesto, me contou essa história. Não resisti à tentação de publicá-la. Espero que os mais puristas perdoem o palavreado chulo que se encontra linhas abaixo. Kids under 18, click the emoticon -> :-)
- Quer sair do meu colo?
- Mas assim tão cedo, benzinho?
Não era pra começar assim. Não era pra terminar assim. Eu sabia que se ela voltasse eu não iria resistir e seria uma questão de tempo antes dela pular no meu colo e arrancar minha camisa.
- A gente não devia ter feito isso.
Ela saiu do colo.
- Claro, agora é fácil dizer, né? Já gozou na minha boca, não te importa mais nada.
- Não é nada disso, você sabe...
- Vá se foder, Mercutio.
"Vá se foder". Uma vez tive um diálogo com um amigo sobre os vários sentidos do verbo "foder". Das diferenças entre um "vá se foder", como o que Carolina acabava de me dizer, e um "quero que você me foda", que era o que Carolina costumava me dizer quando nossos beijos costumavam esquentar.
- Sim, claro...
- Puta merda, como você pode ser tão cínico?
- Não é nada disso.
Silêncio. Fiquei observando como ela fica bonita vestindo sua calcinha. De renda. Deve ter pensado nisso antes de escolher qual usaria esta noite. Deve ter sido por minha causa. Não há nada mais lindo do que vê-la passando a roupa íntima por entre as pernas, ajeitando o elástico nas reentrâncias da bunda e do sexo.
- Acho que a gente não deveria ter feito isso.
- Isso o quê? Trepar?
Ela não costuma falar esse tipo de coisa. Só quando está muito brava, o que deve ser o caso. O que ela sempre usa quando fala sobre sexo é "transa". Fala abertamente, até. Lembro de uma vez que estávamos na casa da mãe dela, a velhinha liberal, e ela falava que "quando eu e o Mercutio transamos"...
- É. A gente não deveria ter transado.
- Você não pareceu muito irritado quando a gente tava no meio.
- Você sabe o que eu quero dizer.
- Eu sei, Mercutio. Você não quer mais me ver. Não sou burra. Mas você também não se decide, né? Eu sei que você me quer. Ou quis, sei lá. Está com medo das conseqüências, pra variar.
- Eu gosto de você, cê sabe disso. Mas se a gente continuar se vendo assim, isso não vai nos ajudar em nada, entende? Você não se incomoda com isso? Acha fácil chegar aqui e se agarrar em mim e esperar que tudo continue numa boa?
- Adoro quando você fala desse jeito, carinhoso... Você tem um jeito tão doce de dizer as coisas. Mesmo as mais dolorosas.
- Foi você quem terminou comigo, Carol. Não o contrário.
- Ah, não. Não queira me encher de culpa agora. A gente tem impulsos, porra! Eu não quero te sacanear, nem nada. A nossa história já passou. Se vai ter volta, vai ter de outro jeito, não como era antes. Esse "tempo" é melhor pra gente. É melhor.
Me enche de fúria quando ela frisa o "tempo" que a gente está dando. Quando ela contou que tinha ficado com um cara no ano novo e que era melhor a gente dar um "tempo" eu não achei que fosse nada de melhor. Queria matá-la e depois me suicidar, talvez.
É, talvez me suicidasse, não tinha decidido isso. Matá-la, sim.
Mas o "tempo" foi uma das ene coisas que ela impôs em nossa relação e que eu me apressava em lembrar agora, antes que meu desejo sexual voltasse a me corroer.
Quando ela terminou seu discurso, se voltou para o espelho grande do quarto, que eu só tinha colocado para ela usar quando passasse a noite comigo. Ainda não tinha tido coragem de tirá-lo, embora desde então nunca mais tenha conseguido olhar para meu próprio rosto refletido nele. O espelho Carolina usava para se ver ajeitar o soutien e prender seus cabelos. Embora curtos, ela gostava de usar um tipo de presilha para deixar um rabo-de-cavalo alto. Os fios da franja não chegavam até atrás e cismavam em se derramar sobre seu rosto perfeito, dando um certo ar de atrevimento que atraía a mim e, possivelmente, a todos os machos "machos" da espécie.
- Carol, vem cá.
- Não, você acabou de me expulsar do teu colo.
- Por que você faz isso comigo? Por que me seduz e me excita e me deixa confuso?
- Acho que é porque eu gosto de você.
- Você fez isso com o cara do réveillon?
- Ha, ha, muito engraçado. Não vou entrar no teu joguinho, Mercutio. Quando você começa a dar porrada, sobra pra todo mundo. Não quero brigar agora. Transar com você é muito bom pra mim e eu não pretendo estragar essa sensação.
- Está certo, não vou dar uma de estúpido.
- É, não dê, mesmo.
Ela estava se vestindo bem devagar. E eu sei por quê. Mulheres são vingativas. Ela está fazendo isso de propósito, porque sabe que eu gosto. Ela quer me dar mostras do que eu estou perdendo não estando ao lado dela. Por que ela faz isso? Não sei. Ela mesma já disse que eu nunca a magoei. Mas isso não interessa agora. Interessa que nós não estamos mais juntos e eu devo passar pela penitência de vê-la vestindo o seu belo corpo sabendo que talvez eu nunca mais tenha essa visão pra contemplar.
- Você vai embora?
- Você praticamente me mandou embora, Mercutio.
- Quer que eu te leve?
- Não vou te dar esse fardo. Deixa que eu pego um táxi.
- E quando a gente se vê?
- Acho que a gente não se vê. Não tô a fim de passar por outra sessão de prazer e agonia. Achei que a gente fosse ter uma noite gostosa e sem grilos. Mas não deu. Não me olha com essa cara. A culpa não é sua. Acontece que não dá, simplesmente não dá pra sentir sempre essa angústia. Esse melodrama que se tornou a nossa vida conjugal, em que a gente se beija na boca e logo quer morrer porque não sabe se agüentará o dia de amanhã.
- Não achei que você sentisse isso. Também.
A pausa que eu dei entre o "isso" e o "também" a deixou mais irritada. Da mesma maneira que ela me provoca se vestindo lentamente à minha frente, eu a provoco com meu joguinho verbal imbecil.
- É, eu sou uma idiota, mas também tenho sentimentos, Mercutio.
Me sentei ao lado dela na cama, enquanto vestia seus sapatos caros. Ela sempre gostou de acessórios refinados. Era uma das coisas que contava a favor de seu bom gosto. Passei o braço pelos seus ombros, o que a fez parar com tudo e olhar para mim.
- Vamos combinar que não vale se machucar, ok? Quando um estiver passando dos limites o outro dá um toque, tá certo? Não quero ficar longe de você.
- Ok. Você está passando dos limites.
- Mas já!?
- Sim. Estou incrivelmente tencionada a te beijar na boca e não ir embora pra casa.
[continua na próxima edição]
escrito por Ricardo Sabbag, às 1:03:25 PM.

janeiro 6, 2001
Cheguei em casa depois de ter acordado dentro do ônibus dois pontos depois do meu. Meus irmãos estavam assistindo "Clube Da Luta". Eu peguei bem na parte em que o personagem de Brad Pitt revela ao personagem de Edward Norton, que ele era apenas tudo o que o Norton gostaria de ser e fazer. Arregaçar com tudo, com o emprego de merda, com as pessoas chatas, com a vida medíocre em si, e ainda comer aquela garota que sempre passa, só passa por você.
Uma espécie de Tyler Durden (o personagem de Pitt) não seria nada mau. Ele poderia chamar-se Ian Black e não teria medo de mandar ninguém tomar no cú. Não teria medo de lascar um beijão na boca daquela garota que finge que não me vê e explodir o prédio da Telefonica.
O filme que eu assisti hoje lá no Belas Artes reflete algo parecido. Conta a história do Marques de Sade dentro do manicômio, onde ele sempre arrumava um jeito dos seus textos serem publicados, para o horror em público e deleite nos banheiros e quartos, onde a mediocridade não pode nos enxergar. Não vou me demorar falando do filme para não estragar a surpresa de quem ainda vai assistí-lo. Mas vale um toque: Quem rouba a cena (como em outros filmes) é o Joaquin Phoenix. E eu consegui finalmente tirar minha dúvida sobre os peitos da Kate Winslet (são muito bonitos MESMO)
comentário aleatório: Inveja é uma merda mesmo, principalmente quando sou eu quem a sinto.
abraços
Ian.
escrito por Ian Black, às 6:02:32 PM.

Não costumo lembrar de meus sonhos, talvez porque eles não sejam interessantes o suficiente para sobreviver à luz do dia. Um amigo meu, ao tentar me ensinar a técnica para reter os fiapos de sonhos após o sono, me passou a seguinte dica: deixar sempre um bloco de anotações e uma caneta ao lado da cama, e tratar de anotar tudo imediatamente após acordar. Pois bem, dito e feito: no meio da noite acordei, escrevi tudo que havia acabado de sonhar e mergulhei novamente nos braços de Morfeu. Cerca de cinco horas depois, quando levantei em definitivo, procurei pelo bloco. Pois bem, nem em sonho conseguiria entender o que diziam aqueles garranchos dignos de médico insone. Desencanei da tal técnica. Mas não posso deixar de invejar aqueles cujas tramas oníricas são dignas de Oscar. A Suzi, por exemplo, precisa um dia pôr no papel o sonho em que eu apanhei de tanta gente que os caras foram obrigados a fazer fila pra me dar porrada. Êta inconsciente violento o dessa menina. Mas enfim, pra não dizer que nunca sonhei nada de interessante, narrarei a seguir um que tive há alguns anos. Estava eu subindo uma escada muito alta, tão alta que se erguia para além das nuvens. A certa altura, os degraus tornaram-se tão grandes que eu era obrigado a escalar um de cada vez para continuar subindo. E assim fui, de degrau em degrau até alcançar o cume. Só quando finalmente sentei para descansar e enxugar o suor que escorria da testa é que reparei: havia um elevador logo ao meu lado! Imediatamente logo após percebê-lo, o elevador abriu suas portas; dele desceram duas crianças, que não deviam ter mais do que cinco anos de idade. Nossos olhares se encontraram. Sem qualquer tom de malícia, censura ou gozação, elas apontaram seus dedos em minha direção. E então, sorriram para mim.
escrito por Alexandre Inagaki, às 5:19:37 AM.

janeiro 4, 2001
Acho que não sou louca (na acepção técnica, médica e científica da palavra), graças à frequência com que sonho; e, melhor, lembro de quase todas as minhas viagens ao meu perigoso e rico inconsciente.
Acho que nesta noite bati meu recorde - tive quatro sonhos diferentes, apesar de me lembrar nitidamente de apenas dois deles. Buenas, um dos sonhos consiste em um amontoado de cenas nonsense, sem roteiro, sem direção artística ou fotográfica, e o pior, nem teve trilha sonora, o que é um absurdo.
Acho que quanto mais sonhamos e, sobretudo, nos lembramos de nossos sonhos, acabamos ficando mais exigentes com nossas trips oníricas. Sim, exigimos que nosso inconsciente se aperfeiçoe em criar sonhos dignos de indicações ao Oscar... hum, ou algo mais low profile, tipo prêmio no Festival de Brasília.
Okay, dando um pause no subject “como escrever e dirigir sonhos”, eu realmente preciso contar a vocês a minha última incursão ao meu inconsciente. Eis aqui, para fins de registro, um breve relato de tal incursão, no mínimo, hilária e enigmática.
Estava eu sentada na primeira fila de uma sala de shows vagabunda, cheirando a mofo, assistindo a um show do, pasmem, Zezé de Camargo e Luciano (dupla que eu realmente abomino). O estranho é que o Luciano (o carequinha da dupla) nem deu as caras no tal show, que estava com uma iluminação horrorosa e uma sonoplastia digna de causar um enfarte no João Gilberto. Após alguma meia hora de show no mais puro estilo “MTV Unplugged”, as luzes se acendem e uma funcionária mal humorada da casa de show de horrores anuncia o fim do espetáculo, visto que a quota mínima de ingressos necessários para a apresentação da dupla não havia sido atingida. Somente, neste momento, eu me dou conta, ao olhar para trás, que menos de um terço dos assentos desconfortáveis e caindo aos pedaços estava ocupado.
Logo percebi a tristeza profunda, daquela de amolecer os corações mais duros, do Zezé de Camargo, que ainda resmungou: “Pô, fala pra gerente, minha amiga da fase mais áurea de minha carreira, que o show tem que continuar...”. E não é que para surpresa de todos os presentes, a tal da gerente sai de uma porta lateral e repentinamente luzes de discoteca, jatos de gelo seco e garçonetes gostosas surgem do nada? E mais, a tal da gerente (similar a Sheila Melo, vestida num tailleur elegantérrimo) declara iniciada a grande festa. GRANDE FESTA? Oh, my God, o que será que isso significará?
Virei-me para a garçonete para pegar um coquetel de manga e adivinhem, hahaha, eis que vejo o Pelé sentado logo ao meu lado, vestindo uma camiseta do Santos Futebol Clube e calças jeans. Diante da minha cara de pasmo cor de vela, não é que o Rei do Futebol olha fundo nos meus olhos e diz, mostrando todos os seus dentes num puta sorriso: “Tudo bem menina, pode me abraçar, pedir colo e contar-me todos os seus problemas”.
Eu, na minha ingenuidade pueril e emocionadíssima, recosto minha cabeça no peito fofinho do Rei Pelé e confesso, enrubescida: “Meu problema é minha gastrite”. Surreal, simplesmente surreal, eu encontro o Pelé no meu sonho e vou falar de gas-tri-te? Tsc, tsc, tsc, falha no roteiro.
E então, o Pelé me pega pelos ombros, segura delicadamente o meu queixo erguendo o meu rosto, e olhando sério e preocupado para minha cara de criança chorona, resignado, limita-se a dizer a frase mais emblemática e maravilhosa de todos os tempos: “A GASTRITE É UMA DOR NA ALMA”.
FIM. Meu namorado conseguiu, após três tentativas fracassadas, acordar-me do meu sono profundo. E já eram quase duas horas da tarde...
escrito por Suzi Hong, às 9:43:43 PM.

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