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do suposto.
autor: Tatiana Leão

É no relance desta vigília que se esvaem
todas as possibilidades. Atenta, não sóem
em vão os tempos que desejei, apenas
guardo nas palavras mais tensas o ardil
do objeto lodoso na minha caça
a existir e vislumbrar.
Não é concedido que se proclame
qualquer desvio ou celeridade da trilha
que se forma diante destes pés exauridos.
Se, por um lado, a soma das suas passadas
não adjetiva nenhuma exclamação exaltada,
a recordação permanece e clama por si.
Que tormenta, qual arrebatamento
me tomará neste dia, quantos laços
hão de cair, onde estará então a chama
reservada desde sempre para o segundo
único, reverberante,
que terá lugar depois da passagem?
É força, é força, e além.
ler comentários (0)do monólogo de si
autor: Tatiana Leão
Solilóquio
Como fui, passando delicadamente
Nas tragédias alongadas vida adentro,
Deixou assombrada a figura restante que sou eu.
O tempo que se deslizou por mim
Manchou com seus êxitos a pele
Que recobre uma máscara simplista de existência.
Não houve, não há, não haverá mais
O que se recorte ou delineie assim
Nos trajetos a traçar e percorrer, vagarosamente.
Abstrata é a esperança, e recorrer
A ela é pobre, insuficiente socorro
Para amainar meu descanso, todo ele desalento.
Os escuros profundos que são tecidos
Nos recônditos insistentes perseguidos
Fogem à luz, fogem à vida, fogem ao amor, fogem a tudo.
do novo mês.
autor: Tatiana Leão
Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.
Mário Faustino, chegou a mim pela Juliana Fausto.
do pulso.
autor: Tatiana Leão

foto credit: Patrick ??? ???
O pulso que se revela
trágica e dolorosamente
fechado
me descreve tudo
o que sei e não posso
compreender.
A realidade é pálida
e não tenho mais sustos
nem reconheço nada
deslizo indiferente
com mãos abertas
e olhos anestesiados.
E por vezes parece
que a verdade se esconde
por trás da dor
mas ainda há o hábito
que tira das minhas mãos
esse veneno.
Talvez em algum momento
menos efêmero, em breve,
tudo se torne simples
e então seja fácil
recostar minha cabeça
neste infinito.
12 de março de 1999.
das barcas.
autor: Tatiana Leão
Sob influência destas barcas,
Te escrevo um poema.
Estes ruídos rangentes
Que navegam por sobre os olhos,
Assim, escritos e guardados,
Serão teus, como eu.
Olhando os passos frenéticos,
Esta pressa indulgente,
Paranóia tão comum,
Teus lábios brancos sobrevoam
Úmidos como os pés
Das garças pobres.
Mais adiante, o verde
Obtuso e raro como o sorriso
Desta gente ondulátória,
Forma uma agonia tão imensa,
Tão pungente, que a água
Perde o rumo, como eu.
28 de outubro de 1998



