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arquivo da categoria'literatura'

do suposto.

autor: Tatiana Leão
03 14th, 2012

É no relance desta vigília que se esvaem
todas as possibilidades. Atenta, não sóem
em vão os tempos que desejei, apenas
guardo nas palavras mais tensas o ardil
do objeto lodoso na minha caça
a existir e vislumbrar.

Não é concedido que se proclame
qualquer desvio ou celeridade da trilha
que se forma diante destes pés exauridos.
Se, por um lado, a soma das suas passadas
não adjetiva nenhuma exclamação exaltada,
a recordação permanece e clama por si.

Que tormenta, qual arrebatamento
me tomará neste dia, quantos laços
hão de cair, onde estará então a chama
reservada desde sempre para o segundo
único, reverberante,
que terá lugar depois da passagem?

É força, é força, e além.

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do coração ardente.

autor: Tatiana Leão
03 6th, 2012

Despair underwater... III
Creative Commons License foto: Miss Cartier

Um coração ardente

 
Lygia Fagundes Telles
 

O velho voltou-se para a janela aberta, que enquadrava um pedaço do céu estrelado. Tinha uma bela voz:

“… Mas eu dizia que na minha primeira juventude fui escritor. Pois é, escritor. Aliás, enveredei por todos os gêneros: poesia, romance, crônica , teatro… Fiz de tudo. E mais gêneros houvesse… Meti-me também na política, cheguei a escrever uma doutrina inteira para o meu partido. Mergulhei ainda na filosofia, ô Kant, ó Bergson!… Achava importantíssimo meu distintivo de filósofo, com uma corujinha encolhida em cima de um livro.”

Calou-se. Havia agora no seu olhar uma expressão de afetuosa ironia. Zombava de si próprio, mas sem amargor.

“Eu não sabia que não tinha vocação nem para político, nem para filósofo, nem para advogado, não tinha a menor vocação para nenhuma daquelas carreiras que me fascinavam, essa é a verdade. Tinha apenas um coração ardente, isto sim. Apenas um coração ardente, mais nada.”

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do monólogo de si

autor: Tatiana Leão
05 4th, 2011

Rural Abandon (18)
Creative Commons License foto: Jon Bradley Photography

Solilóquio

Como fui, passando delicadamente
Nas tragédias alongadas vida adentro,
Deixou assombrada a figura restante que sou eu.

O tempo que se deslizou por mim
Manchou com seus êxitos a pele
Que recobre uma máscara simplista de existência.

Não houve, não há, não haverá mais
O que se recorte ou delineie assim
Nos trajetos a traçar e percorrer, vagarosamente.

Abstrata é a esperança, e recorrer
A ela é pobre, insuficiente socorro
Para amainar meu descanso, todo ele desalento.

Os escuros profundos que são tecidos
Nos recônditos insistentes perseguidos
Fogem à luz, fogem à vida, fogem ao amor, fogem a tudo.

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do novo mês.

autor: Tatiana Leão
12 4th, 2010

Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

Mário Faustino, chegou a mim pela Juliana Fausto.

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do pulso.

autor: Tatiana Leão
01 14th, 2010


Creative Commons License foto credit: Patrick ??? ???

O pulso que se revela
trágica e dolorosamente
fechado

me descreve tudo
o que sei e não posso
compreender.

A realidade é pálida
e não tenho mais sustos
nem reconheço nada

deslizo indiferente
com mãos abertas
e olhos anestesiados.

E por vezes parece
que a verdade se esconde
por trás da dor

mas ainda há o hábito
que tira das minhas mãos
esse veneno.

Talvez em algum momento
menos efêmero, em breve,
tudo se torne simples

e então seja fácil
recostar minha cabeça
neste infinito.

12 de março de 1999.

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