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arquivo de December, 2010

de dois mil e dez.

autor: Tatiana Leão
12 31st, 2010

road and mountain bw
Creative Commons License photo credit: mike138

Não lhe tenho apego, ano que se prolonga, e é meu desejo que saiba disso; você foi e eu o acompanhei, desgostosa e sem opção, a cada nova queda. Foram tão profundas, tão numerosas, e sei que foi você quem as colocou no meu caminho, como a me desafiar.

Vi caírem de minhas mãos os apegos que você me fez aprender a apreciar em sua brincadeira de efemeridade. Se desfiaram, um por um, em um desamparo irremediável; somente você permaneceu, contrário ao que fez de mim, descontinuada exaustão.

Você usou do que pode para me jogar à superfície. Sufocada, recorri a ela para buscar alívio e quase fui por ela envolvida. Tivesse cedido aos seus expedientes, não teria ido ao reencontro no qual ainda me agarro para não me tornar oca. Meu coração ainda reflete esses ruídos vazios que foram seus e sobrevive às custas de expectativas sem esperanças. Insiste, existe, flexiona e relaxa. E assim caminho pela existência: apesar de você e apesar de mim mesma.

Sei que irá embora em breve, em um desalento semelhante ao que me deixará de herança. Não lamento essa perda; apenas anseio que, enfim, admita me abandonar, para que eu possa me erguer ainda mais uma vez e enfrentar, com olhos limpos e mãos abertas, o que me houver pela frente.

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do triângulo do drama.

autor: Tatiana Leão
12 28th, 2010

Não me lembro mais com precisão como encontrei o texto que publico agora neste post. Sei que procurava materiais sobre Poliamor, em uma pesquisa pessoal intensa que fazia sobre o tema por volta de 2003/2004. Uma coisa levou a outra e, quando me dei conta, tinha ao alcance de alguns cliques um dos textos que mais moveriam a minha vida dali por diante. Soube disso no momento em que terminei de lê-lo e foi por isso mesmo que resolvi, já na época, traduzi-lo.

É claro que a tradução não saiu tão boa quanto o texto merecia, o traduzir ainda não tinha sido feito minha profissão, mas serviu para repassar o texto para algumas pessoas.

Minha intenção inicial era oferecê-lo como um presente àqueles que dele pudessem tirar proveito, da mesma maneira como eu faço, ano após ano, quando o releio. Seu impacto nunca foi diminuído, pelo contrário: a cada reencontro, percebo um novo viés que havia passado desapercebido nas leituras anteriores e me trazem novas perspectivas.

O mesmo aconteceu agora quando, vendo um amigo precisar de forças, pensei que era o momento de compartilhá-lo da maneira mais ampla que estivesse ao meu alcance. Antes, achei por bem passá-lo novamente pelos meus próprios olhos e esclarecer o que carecia esclarecimento, acertar o que carecia de acerto. Oferecer, assim, o melhor que pude e esperar, em troca, que estas palavras movam outras vidas.

Estou certa de que moverá.

Algumas observações:

- É bom ressaltar que não sou a autora do texto original em inglês, sou responsável somente pela tradução para o português.
-O texto original foi modificado pela autora em 2008. Não gostei do fluxo da versão revisada, apesar de notar que o conteúdo permanece o mesmo. Optei, portanto, por oferecer a tradução da versão antiga.
- O texto em inglês citado acima pode ser encontrado aqui.
- Você pode baixar uma cópia em PDF do texto aqui.
- Sugestões e correções são bem-vindas, desde que sejam educadas.
- Mais bem-vindos ainda são comentários, opiniões e debates. Os comentários  estão abertos.


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do tempo e espaço interiores.

autor: Tatiana Leão
12 22nd, 2010

IMG_0076 copy.jpg

Creative Commons License photo credit: alanlangdon

Estamos socialmente condicionados a considerar a imersão total no espaço e no tempo exteriores como coisa normal e saudável. A imersão no espaço e no tempo interiores tende a ser considerada um afastamento antissocial, um desvio inválido, patológico per se e, de certo modo, desabonador.

Respeitamos o viajante, o explorador, o alpinista, o astronauta. Para mim, faz muito mais sentido como projeto – na verdade, projeto de urgência desesperada em nossa época – explorar o espaço e o tempo interiores da mente. Talvez isso seja uma das poucas coisas que ainda fazem sentido em nosso contexto histórico. Estamos tão desligados deste, que muita gente se pergunta a sério se ele existe.

Ronald David Laing, in A política da experiência.
Encontrei no excelente O mundo das imagens, da Nise da Silveira.

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do mundo.

autor: Tatiana Leão
12 15th, 2010

Diz-se que Agenor, o eterno Cartola, compôs O mundo é um moinho para sua filha, que passava por problemas graves em sua vida. No vídeo acima, canta a canção a pedido do seu pai, com quem passou 40 anos sem contato, depois de ter sido expulso por ele de casa.

Para muito além da delicadeza e da sensibilidade da letra genial criada por Cartola, ficam as relações de pais e filhos: abandono, carinho, reencontro, turbulência, tudo conjunto no moinho avassalador que é a vida.

Ainda é cedo, amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar

Preste atenção, querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem, amor
Preste atenção, o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões a pó

Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés.

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do novo mês.

autor: Tatiana Leão
12 4th, 2010

Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

Mário Faustino, chegou a mim pela Juliana Fausto.

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