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os locais mais ardentes do inferno são reservados para aqueles que, em tempos de grande crise moral, mantêm sua neutralidade. — john f. kennedy

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arquivo de November, 2009

da fome.

autor: sweethell
11 21st, 2009

Good bye Diane
Creative Commons License foto: rore

meu estômago se revira de forma barulhenta e acordo de um torpor distraído para a necessidade do meu corpo tão negligenciado. ele está com fome, muita fome, e mesmo essa conclusão óbvia não movimenta minha vontade. o cheiro e o sabor da comida que está pronta á minha espera me enoja sutilmente e novamente meu estômago reage, misturando a ânsia por nutrientes com o enjôo provocado pelos sentidos ilusórios, peça interessante essa que o cérebro vem me pregar.

não evito o sorriso que me surge, uma apreciação sincera da fina ironia dessa série de acontecimentos. a invasão de sensações diversas de cada um deles acaba por me fazer transitar de um delírio a outro; se antes era outra coisa a me distrair, agora aproveito-me de cada reviravolta, ruído e contraditoriedade apresentadas, distilo cada uma carinhosamente até me perder na próxima, uma sucessão de entregas em uma relação complexa e indefinível.

noto, com a mesma quase indiferença de antes, que todo o processo começa a se aproximar de um limite. a fome que me leva aumenta em proporções descompassadas e separa-se do todo, forçando sua imponência. torna-se insuportável, é necessário desligar e, em um automatismo que exige muito mais esforço do que se esperaria, comer.

a amplitude se instala e tudo torna-se maior do que é: como transformar o insuportável em suportável, minimizar para que os limites não se percam, é possível compartimentalizar sempre e sempre até que as coisas se tornem viáveis? testo a hipótese dessa alquimia maldita de maneira ensaiada, um passo depois do outro, gestuais conhecidos diariamente, até se desmanchar um pedaço de alguma coisa familiar entre as minhas papilas. o bolo de comida desce rápido, escorre garganta abaixo, recebido com agito pelo órgão já ácido da espera. ele se acalma, percebo isso, e me encontro desejando essa calma para a minha própria acidez.

não há calma, há o insuportável. enquanto satisfaço minha carcaça, sei que é preciso disfarçá-lo, o insuportável, é urgente mascará-lo para que seja enfim palatável, que possa ser engolido sem agressão, que escorra sem alarde, fora de mim.

dentro de mim, que fique somente a pressão, calada, invisível em sua própria explosão.

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a mãe tem de morrer.

autor: sweethell
11 15th, 2009

Good bye Diane
Creative Commons License foto: movimente

sorrio não por achar graça nas coisas, é cada vez mais raro esse acontecimento, algo me chamar genuinamente a atençãop ro fascínio. rio mesmo para desancar a disfarçar minha intangibilidade, esse poço de melancolia sem fim e sem explicação, que não aconteceu, vontade de nada possível ou impossível. meu reino sombrio, trocava-o de olhos fechados por uma experiência nova, alguma sensação que trouxesse de volta (de volta?) uma sombra de senciência, e junto com ela o poder de finalmente tocar as coisas, sabê-las, desejá-las e tê-las em mim.
mas a mãe tem de morrer.

sorrio não por achar graça nas coisas, é cada vez mais raro esse acontecimento, algo me chamar genuinamente a atenção pro fascínio. rio mesmo para desancar a disfarçar minha intangibilidade, esse poço de melancolia sem fim e sem explicação, saudade de tudo que não aconteceu, vontade de nada possível ou impossível. meu reino sombrio, trocava-o de olhos fechados por uma experiência nova, alguma sensação que trouxesse de volta (de volta?) uma sombra de senciência, e junto com ela o poder de finalmente tocar as coisas, sabê-las, desejá-las e tê-las em mim.

mas a mãe tem de morrer.

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