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arquivo de April 21st, 2008
do abismo.
autor: sweethell
novamente, estava lá, diante do abismo. teria sido ela mesma a trilhar o caminho que a levara até lá ou o caminho teria se encarregado de levá-la a esse destino? ao se fazer essa pergunta, o abismo parecia respirar, como que num crescendo, para depois colocar-se novamente impassivo diante de seu espanto.
não era o mesmo que havia encontrado antes, sabia; esse era repleto de novos desdobramentos e sua extensão lhe era completamente desconhecida. tentou, parada diante dele, reconhecê-lo pela lembrança daqueles que havia visitado antes, na sua fúria de correr pela vida, mas percebeu que não era através dos outros abismos que poderia conhecer esse. foi se dando conta de que a semelhança que a poderia clarear a visão desse ponto estava unicamente no fato de ser necessário o mergulho para haver o reconhecimento, o tateio para saber a textura, a abertura de sua boca para sentir seus gostos e, assim, poder conhecê-lo e estar dentro dele, sabendo-se inteira e irremediavelmente envolvida.
ainda assim, incomodava-lhe aquele abismo. haviam os outros incomodado tanto antes? não se recordava, uma vez que, ao abandoná-los, restou deles somente o que carregava dentro de si, sua mistura maculada de sensações passadas e transformadas com as expectativas que deixaram para trás. a matéria de que eram feitos não tinha nome, tornava-os intangíveis, o incômodo tomando um espaço que pouco a pouco se assemelhava a ela inteira, paralisando-a enquanto era necessário o movimento e nada poderia tirá-la da inércia exceto despir-se desse incômodo gelando seu corpo acelerando a velocidade de seus pensamentos confundindo-os como uma armadilha onde era ela a presa precisava do movimento mas estava paralisada desejava novamente correr mas não queria fugir e o assombro, o assombro, o assombro - percebeu, era medo. sem ele, o que lhe restaria seria apaixonar-se pelo desconhecido.
então decidiu-se pelo passo, em vez do retorno. novamente, estava lá, entregando-se ao abismo.
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