


arquivo de May, 2003
do não-abandono.
autor: sweethell
e não há volta porque não houve abandono, já que não fugi daqui, apenas não conseguia chegar. e prometer fica para um outro momento, quando houver mais segurança de que poderei cumprir algo.
cobranças sobram enquanto a compreensão rareia. não tem sido fácil e não acredito que possam acreditar no contrário, e por isso não entendo e encolho-me com os olhares de censura. afinal, estou aqui, como sempre; gritar só vai assustar.
e, por enquanto, chega de “nãos”.
ler comentários (0)da existência do laço, dito por outra.
autor: sweethell
mãe nenhuma deveria ser mãe antes de ter lido os poemas de gabriela mistral. quando me tomo pelo pensamento de que os outros se cansarão de me ouvir falar sobre estar maternidade que experimento, única por si só enquanto tão una com a história comum de toda mulher, é nela que penso. me consola e renova o ânimo, ainda que sem pretensões.
Piececitos
A Jorge Guzmán Dinator
Picecitos de niño
azulosos de frío,
¡cómo os ven y no os cubren,
Dios mío!
Piececitos heridos
por los guijarros todos,
ultrajados de nieves
y lodos
El hombre ciego ignora
que por donde pasáis
una flor de luz viva
dejáis;
que allí donde ponéis
la plantita sangrante,
el nardo nace más
fragante.
Sed, puesto que marcháis
por los caminos rectos,
heroicos como sois,
perfectos.
Piececitos de niño,
dos joyitas sufrientes,
¡cómo pasan sin veros
las gentes!
tradução de Maria Teresa Almeida Pina
Pezinhos de criança
azulados de frio
Como os vêem e não os cobrem,
Deus meu!
Pezinhos feridos
pelas pedras todas,
ultrajados de neves
e lodos!
O homem cego ignora
que por onde passais,
uma flor de luz viva
deixais;
Que ali, onde colocais
a plantinha sangrante,
o narco nasce mais
perfumado.
Sede, posto que marchais
pelos caminhos retos,
heróicos como sois
perfeitos.
Pezinhos de criança,
duas joinhas sofridas,
como passam sem ver
as pessoas!
Miedo
Yo no quiero que a mi niña
golondrina me la vuelvan;
se hunde volando en el cielo
y no baja hasta mi estera;
en el alero hace nido
y mis manos no la peinan.
Yo no quiero que a mi niña
golondrina me la vuelvan.
Yo no quiero que a mi niña
la vayan a hacer princesa.
Con zapatitos de oro
¿cómo juega en las praderas?
Y cuando llegue la noche
a mi lado no se acuesta…
Yo no quiero que a mi niña
la vayan a hacer princesa.
Y menos quiero que un día
me la vayan a hacer reina.
La podrían en un trono
a donde mis pies no llegan.
Cuando viniese la noche
yo no podría mecerla…
¡Yo no quiero que a mi niña
me la vayan a hacer reina!
tradução de Henriqueta Lisboa
Não quero que minha filha
se transforme em andorinha.
Para o céu iria voando
sem baixar à minha esteira.
Nos beirais faria ninho
sem a pentearem meus dedos.
Não quero que minha filha
se transforme em andorinha.
Não quero que minha filha
se mude numa princesa.
Calçando sandálias de ouro
não brincaria no prado.
E quando a noite descesse
não dormiria a meu lado.
Não quero que minha filha
se mude numa princesa.
E menos quero que um dia
ela venha a ser rainha.
Sentá-la-iam num trono
a que meus pés não alcançam.
E quando a noite chegasse,
niná-la eu não poderia.
Não quero que minha filha
venha um dia a ser rainha.
Que No Crezca
Que el niño mío
así se me queda.
No mamó mi leche
para que creciera.
Un niño no es el roble,
y no es la ceiba.
Los álamos, los pastos,
los otros, crezcam:
el malvavisco
mi niño se queda.
Ya no le falta nada:
risa, maña, cejas,
aire y donaire.
Sobra que crezca.
Si crece, lo ven todos
y le hacen señas.
O me lo envalentonan
mujeres necias
o tantos mocetones
que a casa llegan;
¡que miniño no mire
monstruos de leguas!
Los cinco veranos
que tiene tenga.
Así como está
baila e galanea.
En talle de una vara
caben sus fiestas,
todas sus Pascuas
y Noches-Buenas.
Mujeres locas
no griten y sepan:
nacen y no crecen
el Sol y las piedras,
nunca maduran
y quedan eternas,
En la majada
cabritos y ovejas,
maduran y se mueren:
¡malhayan ellas!
¡Dios mío, páralo!
¡Que ya no crezca!
Páralo y sálvalo:
¡mi hijo no se me muera!
tradução de Henriqueta LisboaAssim fique
meu filho.
Não o amamentei
para vê-lo crescer.
Um menino não é roble
nem paineira.
Os álamos, os pastos,
os outros, cresçam.
Qual malvaísco
meu filho fique.
Nada mais lhe falta:
riso, manha, teima,
graça, donaire.
O crescimento
virá de sobra.
Se crescer será visto,
acenos perceberá.
Dar-lhe-ão valentia
mulheres néscias
ou os mocetões
de visita.
Não contemple meu filho
monstros de léguas.
Os cinco verões
que tem, tenha.
Assim como está
baila e galanteia.
No tamanho de uma vara
suas festas cabem:
Ano Bom e Páscoa.
Mulheres loucas,
não gritem e saibam:
nascem e não crescem
o sol e as pedras,
nunca maduram
e eternos quedam.
nas manadas,
cabritos e ovelhas
maduram e morrem
- os malfadados!
Deus meu, não deixes
que meu filho cresça!
Pára-o, salva-o,
para não morrer!
do nome e o que há nele.
autor: sweethell
foi em julho, quase dois anos atrás, que tudo mudou de língua. do inglês, exaustivamente exercitado em anos de aulas tão agradáveis quanto desagradáveis, para o português, nativo e apaixonado, ainda que descrente. veio acompanhado de mudanças sutilmente essenciais, tantas que seria impossível descrevê-las todas, e hoje é difícil entrever, entre essas mudanças e a língua, qual foi a influência e qual o influenciado.
disso sobrou somente o nome, com a sua carga de estranheza, resistente à toda ascensão e solitário em sua desfunção: a little bit of sweethell. há, é claro, um motivo. sempre há.
a primeira tentativa, distante já seis anos, tinha outro nome e outra forma. na verdade, era disforme em sua intensidade e nem mesmo as memórias - a minha, orgânica, e a do disco rígido, sintética - foram capazes de reter as informações que lá estavam. as cores, somente elas, permaneceram: o preto no fundo, o cinza nas palavras, e algum rosa e azul pontilhados para a atenção de quem se propusesse a vasculhar. surgiram velas, visitas ilustres, imagens egocêntricas, mas era como se tudo permanecesse o mesmo.
o longo hiato que surgiu logo depois disto veio da mais absoluta preguiça - de se dar e de manter essa doação escancarada. como uma pausa temporal, tudo parou e, aos poucos, ficou para trás, como deve ser. foi então que, através de uma nova ferramenta, criou-se esta fênix modificada, com o nome que lhe coube. quase não havia, àquela época, pessoas do mesmo país que eu se interessassem em ler o que lhes era tão facilmente alheio; por isto, o inglês, no nome e no resto. e, voltando ao início desta explicação desnecessária, algum dia o inglês se foi e, no seu lugar, o português, ainda presente.
e, se é assim, porque o nome continua como antes?
desta vez, quero guardar algo do que deixei. nada mais.

