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arquivo de May 31st, 2002

do cuidado e o susto.

autor: Tatiana Leão
05 31st, 2002

o ginecologista foi o primeiro médico a visitar, pelo simples fato de não ser coberto por nenhum plano de saúde e, portanto, não depender de esperar a carência de um para as consultas. já fazia um bom tempo desde a última visita, algo em torno de dois anos – não encontrei um bom ginecologista associado ao meu antigo plano em são paulo que não fosse extremamente fora de mão.

descarreguei por lá não só os supostos problemas hormonais como os supostos gastrointestinais, também. diante dos sintomas e do meu histórico de mais de seis anos de consultas, saí de lá com desconfianças reforçadas de hipotiroidismo, problemas de vesícula e cisto suspeito nos ovários. nas mãos, vários pedidos de exames de hormônios e três ultrassonografias – uma pélvica para checar a vesícula e outros órgãos e mais duas para visualizar o aumento dos ovários.

de todos os pedidos, o primeiro a ser liberado foram as ultrassonografias. marcado o exame para a quarta-feira, dia 20 de março, lá estava eu no hospital são lucas, naquela exata data, aguardando a minha vez de fazer mais uma das centenas de ultrassonografias da minha vida.

um aviso dizia para que qualquer mulher grávida ou com suspeita de gravidez comunicasse seu estado à recepção para que as devidas precauções em relação à área de raio-x, perigosamente próxima às salas de ultrassonografia, fossem tomadas. eu não sabia porque, mas preferi manter distância dali enquanto esperava.

com algum atraso, entrei na consulta. a sala tinha pouco espaço, e nenhum monitor disponível para o paciente, somente o do médico, cuja visualização era um tanto complicada assim, deitada em uma cama com o baixo-ventre coberto por lubrificante. o médico, bastante bem humorado e prestativo, começou o exame silenciosamente, e logo checou algo nos pedidos.

perguntou: “por que você está fazendo estas ultrassonografias?”, ao que respondi sobre a suspeita de cisto nos ovários e problemas de vesícula. “ah, sim… tem sentido muito enjôo, azia, alguma tontura?”, respondi que sim, azia perene e enjôos freqüentes, mesmo que com pouquíssimos episódios de tontura. “e você está comendo direito, tatiana?”, respondi que nem tanto, pior do que gostaria, pois tudo que comia me causava um mal-estar enorme.

“ah, eu imagino”, ele disse, “mas você tem de fazer um esforço para comer melhor, por que agora você come por dois.”

eu não lembro se entendi o que ele disse ou se somente me virei para ver o monitor que ele virava para a minha direção. mas lembro perfeitamente, e sei que não esquecerei nunca, de ver ali, na imagem do que havia dentro de mim, uma vida que não a minha, não passando dos 3,2 centímetros.

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