


arquivo de February 23rd, 2002
da desesperança, e outros.
autor: sweethell
Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se d’uma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio
que d’uns e d’outros olhos derivadas
s’acrescentaram em grande e largo rio.
Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.
Luiz Vaz de Camões.
ler comentários (0)da dor individual e sua impermeabilidade social.
autor: sweethell
Não digam que isso passa,
não digam que a vida continua,
que o tempo ajuda,
que afinal tenho filhos e amigos
e um trabalho a fazer.
Não me consolem dizendo que ele morreu cedo
mas morreu bem (quem não quereria uma morte como essa?)
Não digam que tenho livros a escrever
e viagens a realizar.
Não digam nada.
Vejo bem que o sol continua nascendo
nesta cidade de Porto Alegre
onde vim lamber minha ferida escancarada.
Mas não me consolem:
da minha dor sei eu.
Lya Luft, em “O Lado Fatal”.
da nova (já antiga) realidade.
autor: sweethell
Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono
Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo
Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída
Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio
Soneto, de Chico Buarque.
do cansaço.
autor: sweethell
Tarde chuvosa em gris cansado,
e segue o caminhar.
As árvores murchas.
espacoespacoespacoMeu quarto, solitário.
E os retratos velhos
e o livro sem cortar…
Jorra a tristeza pelos móveis
e pela alma.
espacoespacoespacoQuiçá
Não tenha para mim Natureza
o peito de cristal.
E me dói a carne do coração
e a carne da alma.
espacoespacoespacoE ao falar,
ficam minhas palavras no ar
como cortiças na água.
Só por teus olhos
sofro eu este mal,
tristezas de antanho
e as que virão.
Tarde chuvosa em gris cansado,
e segue o caminhar.
Tarde, de Federico García Lorca, traduzido por William Agel de Mello.

