

E, tantas emoções depois, 2011 chega aos seus derradeiros momentos.
Com promessas de infortúnios mil ele veio, no rastro do ano anterior. Chegou arrasado, reunindo forças, sobrevivente; seus primeiros suspiros eram desespero e angústia. Mesmo a esperança, aquela que surge não se sabe de onde e nem porquê, o acompahou lentamente, atrasada, como quem busca refúgio de um temporal que parece não ter fim.
Mas a luta foi dele, e houve tantas, repetidas, repentinas, tantas quase perdidas, que foi surpresa quando elas começaram a mostrar que havia, sim, um lugar ao sol para o êxtase. Pouco a pouco, se desdobraram satisfações, amores, vitórias, delícias. Não que os percalços fossem poucos, não foram, e intensos; superação foi palavra de ordem, e 2011 a seguiu obediente e envolvido, como era preciso e devido.
Agora que se vai, se despede ainda com ares de vencedor. Deixa em seu lugar um quê de triunfo inteligente, consciente de que o futuro não será fácil ou simples, mas que será possível.
E, com possibilidades, vai se construindo 2012. Que venha!
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foto: Bruno Torturra Nogueira
Eu gostaria de escrever um longo e ponderado texto para expôr minha opinião acerca da legalização das drogas, em especial da maconha, cujo debate é mais destacado. Gostaria de, nesse texto, explicar porque acredito que a legalização é o caminho para mais consciência e menos violência, não somente para os usuários como para todos os cidadãos, deste país e de todo o mundo. Gostaria que ele fosse longo, porém pouco prolixo, para que nenhum esclarecimento ficasse perdido em elucubrações. Gostaria de poder redigi-lo de uma maneira tal que houvesse pouco espaço para ter meu caráter julgado por conta das minhas opiniões. Gostaria que ele fosse a minha parte, ainda que pequena, para colaborar com o mundo como eu acredito que ele pode vir a ser, em vez do mundo tacanho, pequeno e opressor com o qual temos de lidar, todos nós, todos os dias.
Infelizmente, neste momento me é impossível, apesar da questão ser ainda mais patente depois do ocorrido em São Paulo no último domingo, quando a polícia, que deveria proteger a integridade de seus cidadãos, atacou ferozmente o grupo que pretendia expressar seu desagrado em relação às leis arcaicas e prejudiciais existentes. Essa atitude nos deixa claro o estado real das coisas no país, inclusive para aqueles que, na maior parte do tempo, acreditam que não têm nada a ver com isso, que é melhor ficar na sua, que isso é problema dos outros, que não há nada que se possa fazer.
A grande verdade por trás disso é que estamos, todos, sob o jugo de uma vasta ditadura; uma ditadura moral, uma ditadura tácita porém disposta a combater com quanta violência for necessária os ataques ao seu status quo. E se você também acha que não tem nada a ver com isso, olha à sua volta e pense que a próxima expressão a ser esmagada pode ser a sua.
Destaco abaixo algumas notícias que dão conta de demonstrar o absurdo.
NÃO SOMOS CONDUZIDOS, CONDUZIMOS
“Durante a concentração no MASP, a maioria ainda nem havia chegado, uma turma de uns 20 neonazistas, facistas, ultra-nacionalitas, se colocou em fila para protestar contra a marcha. Diziam defender a família, o Brasil, o nacional-socialismo. A polícia não os molestou. Ao contrário, fez um cordão para os manter isolados das centenas de manifestantes que foram chegando. Quando as primeiras bombas voaram, o pequeno grupo nazi aplaudiu. Eu vi. Eu e muita gente viu. E você também pode ver se procurar na rede. Facistas batendo palmas para a polícia que reprimia com extrema violência um protesto pedindo liberdade de expressão.”
PM ATACA MANIFESTANTES DEPOIS DE LIBERAR MARCHA
Antes da proibição os organizadores da marcha haviam fechado um acordo com o comando do 7º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelo policiamento da avenida Paulista. Pelo acordo, se a Justiça proibisse a Marcha da Maconha os manifestantes poderiam fazer um protesto pela liberdade de expressão desde que ocultassem referências à droga.
Nesta sábado, pouco antes da confusão, o capitão PM Benedito Del Vecchio ratificou o acordo. A negociação foi acompanhada pela reportagem do iG. Os manifestantes cumpriram o acordo e colaram fitas adesivas em todas as faixas e cartazes que continham a palavra maconha. Por volta das 15h, o capitão confirmou ao iG que os manifestantes até aquele momento cumpriam o combinado. “Até agora, está tudo certo. Eles estão se adequando.”
Minutos depois que os manifestantes tomaram a avenida, no entanto, Del Vecchio determinou a desobstrução da Paulista. Policiais da Tropa de Choque, portando cassetetes e escudos, partiram para cima das pessoas que faziam o protesto e, sem aviso prévio, começaram a disparar bombas e tiros de borracha.
POLÍCIA AGRIDE REPÓRTER E MANIFESTANTES NA MARCHA DA MACONHA EM SP
“Com balas de borracha e bombas de efeito moral, a Polícia Militar perseguiu por 3 km cerca de 700 pessoas que protestavam contra a proibição da Marcha da Maconha na tarde deste sábado (21) em São Paulo.
Durante a cobertura do protesto, o repórter da TV Folha Felix Lima foi agredido e teve seu equipamento danificado pela Guarda Civil Metropolitana.
Apesar de estar identificado com crachá, Lima recebeu um jato de spray de pimenta em seu rosto e na lente do equipamento.”
“Como já aconteceu em outras vezes, a Justiça proibiu a manifestação porque deturpou o sentido dela e disse que, na verdade, ela seria uma apologia ao uso de drogas e uma incitação ao crime. O que a gente está questionando é um dispositivo legal, a gente não está incentivando ninguém a agir contra a lei.”
O vídeo acima é da Revista Trip e mostra bem o que realmente aconteceu.
Abaixo, seguem outras matérias e um vídeo do neurologista Sidarta Ribeiro, que debatem a legalização da maconha.
BRASIL EXALTA CACHAÇA, MAS PROÍBE MACONHA, CRITICA SONINHA
“Não tem nada de apologia ao crime. É a defesa da mudança da legislação. Você não está defendendo que as pessoas ajam contra a lei, mas que a lei seja modificada. A marcha é uma manifestação como muitas outras. É preferível que a maconha, mesmo para fins recreativos, seja vendida dentro do mundo das leis, das regras, do controle de qualidade, do controle fiscal e tudo mais. Melhor do que continuar sendo monopólio dos bandidos, que não estão nem aí para regra nenhuma, a não ser as que eles mesmo impõe.”
NA VÉSPERA DA MARCHA DA MACONHA, A ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL LEAP, FORMADA POR POLICIAIS E MEMBROS DA JUSTIÇA, PREGA A LEGALIZAÇÃO DE TODAS AS DROGAS
“A proibição causa mais danos do que as drogas em si, porque ela que gera violência. O mercado do álcool e do tabaco se desenvolve sem que a sua produção ou distribuição acabem em mortes.”
LEGALIZAÇÃO DAS DROGAS, UMA RESPOSTA À FALÊNCIA DA POLÍTICA PROIBICIONISTA
“A mídia cumpre um papel muito importante na manutenção da política proibicionista no Brasil. A televisão, o rádio e os jornais foram os principais responsáveis por instaurar o terror e o medo na sociedade no processo de invasão dos morros cariocas ao fim do ano passado. Ao mesmo tempo, a grande mídia também cumpria o papel de encobrir os abusos cometidos pela polícia dentro das favelas e de ressaltar a boa relação desta com os locais.”
“Naquele instante, a gente percebeu que o livro (Maconha, cérebro e saúde) tinha um potencial de agitação política grande, porque a maior parte das informações que estão ali era desconhecida pelo público e, uma vez sendo conhecida, fortalece muito a posição da legalização.”
A VERDADE SOBRE A MACONHA
“A partir dos anos 60, várias pesquisas parecidas foram encomendadas por outros governos. Relatórios produzidos na Inglaterra, no Canadá e nos Estados Unidos aconselharam um afrouxamento nas leis. Nenhuma dessas pesquisas foi suficiente para forçar uma mudança.”
Solilóquio
Como fui, passando delicadamente
Nas tragédias alongadas vida adentro,
Deixou assombrada a figura restante que sou eu.
O tempo que se deslizou por mim
Manchou com seus êxitos a pele
Que recobre uma máscara simplista de existência.
Não houve, não há, não haverá mais
O que se recorte ou delineie assim
Nos trajetos a traçar e percorrer, vagarosamente.
Abstrata é a esperança, e recorrer
A ela é pobre, insuficiente socorro
Para amainar meu descanso, todo ele desalento.
Os escuros profundos que são tecidos
Nos recônditos insistentes perseguidos
Fogem à luz, fogem à vida, fogem ao amor, fogem a tudo.
A mais importante esfera de dar, entretanto, não é a das coisas materiais, mas está no reino especificamente humano. Que dá uma pessoa a outra? Dá de si mesma, do que tem de mais precioso, dá de sua vida. Isto não quer necessariamente dizer que sacrifique sua vida por outrem, mas que lhe dê daquilo que em si tem de vivo; dê-lhe de sua alegria, de seu interesse, de sua compreensão, de seu conhecimento, de seu humor, de sua tristeza – de todas as expressões e manifestações daquilo que vive em si. Dando assim de sua vida, enriquece a outra pessoa, valoriza-lhe o sentimento de vitalidade ao valorizar o seu próprio sentimento de vitalidade. Não dá a fim de receber; dar é, em si mesmo, requintada alegria. Mas, ao dar, não pode deixar de levar alguma coisa à vida da outra pessoa, e isso que é levado à vida reflete-se de volta no doador; ao dar verdadeiramente, não pode deixar de receber o que lhe é dado de retorno. Dar implica fazer da outra pessoa também um doador e ambos compartilham da alegria de haver trazido algo à vida. No ato de dar, algo nasce, e ambas as pessoas envolvidas são gratas pela vida que para ambas nasceu. Com relação especificamente ao amor, isso significa: o amor é uma força que produz amor; importência é a incapacidade de produzir amor.
(…)
Quase não é necessário acentuar o fato de que a capacidade de dar depende do desenvolvimento do caráter da pessoa. Pressupõe o alcançamento de uma orientação predominantemente produtiva; nessa orientação a pessoa superou a dependência, a onipotência narcisista, o desejo de explorar os outros ou de amealhar, e adquiriu fé em seus próprios poderes humanos, coragem de confiar em suas forças para atingir seus alvos. No mesmo grau em que faltarem essas qualidades é ela temerosa de dar-se – e, portanto, de amar.
Erich Fromm, in A Arte de Amar.
Livro para ser lido e relido tantas vezes quanto houver disposição e necessidade para tal.
Os grifos são meus.
Recebi este vídeo via Twitter, em um daqueles links nos quais clico preguiçosamente sem ter muita ideia da qualidade ou relevância do conteúdo. Nos primeiros 30 segundos, meu queixo já havia caído e um prazer indescritível tomou conta de mim, justamente o prazer que só palavras bem ditas formando ideias bem colocadas podem provocar.
Trata-se de um discurso de Stephen Fry sobre as palavras, a linguagem, o idioma e o amor por eles. Ao que parece, a fala fará parte de um programa de TV apresentado por ele na BBC de Londres, chamado Planet Word. Me fascina a ideia de um programa totalmente dedicado a essa tríade, assim como me encantou o vídeo. Bem que isso podia colar por aqui – o português é uma língua tão complexa e tão linda, mesmo sofrendo agressões constantes por parte daqueles que a utilizam.
A transcrição da fala pode ser lida abaixo do vídeo. Os negritos são meus.
Aproveite; não é toda hora que se tem a oportunidade de ser tocado por ferramentas tão cotidianas e banalizadas de comunicação quanto simples palavras.



